Crítica | Lanternas – 1X06: Pega Mal

Um funeral para Hal Jordan e uma série que ainda não sabe se quer deixá-lo partir

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Depois de cinco episódios concentrados nos acontecimentos de 2016, Lanternas finalmente dá um salto de dez anos e encontra John Stewart e Hal Jordan em pontos completamente diferentes de suas vidas. “Pega Mal” abandona parcialmente a investigação de Rushville para olhar para as consequências daquele passado, transformando o sexto episódio em um capítulo de luto, ressentimento e tentativa de reconstrução.

A mudança de período é uma escolha interessante porque permite que a série mostre o que aconteceu depois da recusa de John ao anel. Em vez de acompanhar imediatamente sua transformação em Lanterna Verde, encontramos um personagem que seguiu outra carreira e aparentemente construiu uma vida distante dos Guardiões. Hal, por outro lado, surge ainda mais marcado por tudo o que aconteceu. O problema é que Lanternas parece ter pressa justamente quando deveria desacelerar.

A ideia central do episódio é bastante forte: dois homens que carregam interpretações completamente diferentes sobre o mesmo passado. John acredita que Hal ainda precisa responder pelo que aconteceu em Rushville, enquanto Hal parece convencido de que já pagou por seus erros. O reencontro dos dois funciona porque existe uma dívida emocional que não foi resolvida em dez anos. É nesse conflito que “Pega Mal” encontra seu melhor material.

Crítica | Lanternas – 1X06: Pega Mal
Reprodução: HBO Max

Dez anos depois, John Stewart continua preso ao passado

John agora trabalha como arquiteto ao lado de Marcus, projetando abrigos e tentando levar uma vida aparentemente normal. A mudança combina com a decisão tomada no episódio anterior, mas também revela uma contradição interessante: John recusou o anel, mas nunca conseguiu realmente se afastar do que ele representa. O personagem construiu outra vida, mas não conseguiu abandonar completamente o passado.

O reencontro com Hal em uma lanchonete é um dos momentos mais importantes do capítulo justamente por ser simples. John quer algo que Hal não parece disposto a oferecer: reconhecimento. Para ele, a história ainda não terminou. Para Hal, entretanto, os acontecimentos ficaram para trás e sua punição já foi cumprida. Essa diferença de percepção poderia sustentar praticamente todo o episódio.

Infelizmente, a série prefere dividir sua atenção entre uma quantidade considerável de subtramas, diminuindo o impacto desse conflito. Ainda assim, John funciona melhor quando Lanternas deixa de tratá-lo apenas como o futuro Lanterna Verde e o apresenta como alguém tentando descobrir o que fazer com as consequências das escolhas que tomou.

Hal Jordan ganha humanidade antes de morrer

Se há uma atuação que continua sustentando o episódio, é a de Kyle Chandler. O Hal Jordan apresentado aqui está distante da figura confiante dos primeiros capítulos. Ele parece cansado, desgastado e tentando encontrar algum tipo de normalidade depois de anos sendo tratado como alguém que fracassou.

Chandler consegue transmitir essa fragilidade sem transformar Hal em uma caricatura arrependida. Existe culpa, mas também existe orgulho. Existe vontade de seguir em frente, mas também uma incapacidade evidente de abandonar completamente aquilo que aconteceu.

A revelação de seu relacionamento com Kerry acrescenta uma camada interessante ao personagem. Pela primeira vez, Hal parece possuir uma vida que não depende dos Lanternas, dos Guardiões ou de alguma grande conspiração. Ele tinha alguém esperando por ele.

Por isso, sua morte poderia representar muito mais do que a perda de um herói. Poderia ser a conclusão de um arco. E é justamente aí que o episódio começa a tropeçar.

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Reprodução: HBO Max

A morte de Hal funciona até a série decidir não confiar nela

O funeral de Hal é provavelmente o momento mais interessante do episódio. Não existe uma grande multidão, uma homenagem épica ou uma despedida proporcional ao tamanho que o personagem ocupou na história. Há poucas pessoas, um ambiente quase vazio e uma sensação desconfortável de que Hal Jordan está sendo apagado do mundo.

Essa ausência funciona. Em vez de transformar o funeral em espetáculo, Lanternas permite que o vazio fale pelo personagem. O próprio discurso deixado por Hal acrescenta uma camada de melancolia ao momento, especialmente quando John percebe que, por trás de toda a arrogância e dos conflitos, existia uma afeição que seu antigo mentor raramente demonstrava de maneira direta. É uma despedida que poderia ter sido definitiva.

Mas então a série resolve desenterrar o personagem literalmente. O Hal-o-gram é uma ideia divertida isoladamente. A reação de Hal ao descobrir que está dentro do próprio caixão tem um potencial cômico evidente, e Kyle Chandler continua sendo carismático o suficiente para fazer a cena funcionar. O problema está no contexto.

Depois de passar boa parte do episódio construindo o peso da morte de Hal, colocar uma versão holográfica de sua consciência ao lado de John imediatamente reduz o impacto daquilo que acabamos de assistir. A série parece querer que sintamos a ausência do personagem e, ao mesmo tempo, não consegue abrir mão de sua presença. É uma contradição difícil de ignorar.

Guy Gardner muda completamente o tom

A chegada de Guy Gardner é outro ponto de ruptura. Nathan Fillion claramente entende que Guy precisa ser diferente de John e Hal, e sua interpretação introduz uma energia mais exagerada, vaidosa e cômica em uma série que vinha apostando em um tom muito mais contido.

Em certo sentido, isso funciona. Guy parece ter saído de outra produção, e talvez seja justamente essa a graça. Sua personalidade aproxima Lanternas do lado mais irreverente do universo DC e cria um contraste interessante com o peso emocional que domina o episódio.

A dinâmica com John também é promissora. John olha para Guy e enxerga alguém ocupando um espaço que poderia ter sido seu. Guy, por sua vez, recebe um posto que existe, em parte, porque John decidiu recusá-lo. Existe material suficiente aí para construir um conflito muito interessante entre os dois.

A série, porém, trata a chegada de Guy mais como uma ponte para movimentar a trama do que como um acontecimento realmente desenvolvido. Mesmo assim, a presença de três Lanternas, ainda que um deles esteja morto e outro esteja apenas começando a ocupar seu espaço, amplia novamente o horizonte da série.

A menção à fuga de Sinestro e à prisão espacial também mostra que Lanternas continua disposta a inserir elementos mais absurdos da mitologia dos quadrinhos dentro de sua atmosfera policial. É um contraste curioso, mas potencialmente bastante divertido.

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Reprodução: HBO Max

O problema das subtramas

O maior defeito de “Pega Mal” está na quantidade de histórias secundárias que disputam espaço com seu conflito central. A chantagem envolvendo Maggie e os US$ 300 mil é um exemplo claro. A trama até pode ganhar importância posteriormente, mas neste episódio ela consome tempo demais para algo que não possui a mesma força dramática do relacionamento entre John e Hal.

O mesmo acontece com o pai de John na casa de repouso e com as questões envolvendo Marcus e o coronel do Exército. Nenhuma dessas histórias é necessariamente inútil. O problema é a maneira como são distribuídas.

O episódio já possui material suficiente para discutir culpa, ressentimento, luto, responsabilidade e a relação entre John e Hal. Ao adicionar tantas outras linhas narrativas, Lanternas acaba tornando seu próprio capítulo mais disperso.

A revelação sobre Kerry e Hal, por exemplo, merecia mais espaço. É uma informação capaz de alterar nossa percepção sobre o personagem, mas aparece cercada por tantas outras situações que não recebe a força emocional que poderia ter.

O resultado é um episódio que frequentemente parece estar preparando os próximos capítulos quando deveria estar aprofundando o capítulo atual.

Um episódio de transição que ainda encontra bons momentos

“Pega Mal” é, essencialmente, um episódio de transição. A história abandona Rushville, salta uma década e reorganiza seus personagens para a reta final da temporada. Isso explica parte da sensação de que muita coisa está sendo apenas posicionada no tabuleiro.

O problema é que um episódio de transição não precisa ser emocionalmente vazio, e Lanternas demonstra isso justamente nos momentos em que concentra sua atenção em Hal e John. Quando a série deixa os grandes mistérios de lado e observa seus personagens, ela encontra uma identidade mais interessante.

John não sabe exatamente o que fazer com seu ressentimento. Hal acredita que já fez o suficiente para pagar por seus erros. Kerry precisa lidar com a perda de alguém que, aparentemente, ainda fazia parte de sua vida. E Guy chega para ocupar o espaço deixado por um homem morto e por outro que decidiu não assumir o anel.

Existe um excelente drama aí. O episódio simplesmente não confia nele o suficiente.

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Reprodução: HBO Max

“Pega Mal” para a reta final?

O sexto episódio de Lanternas tem boas ideias, algumas cenas emocionalmente fortes e uma atuação excelente de Kyle Chandler, mas também revela os problemas estruturais que a temporada vem carregando.

O salto de dez anos é interessante, mas pouco explorado. O novo cotidiano de John parece existir mais para mostrar que o tempo passou do que para aprofundar sua transformação. A morte de Hal possui potencial dramático, mas é enfraquecida pela decisão de manter sua consciência ativa. Guy Gardner chega com uma energia completamente diferente e pode ser uma ótima adição ao elenco, embora sua introdução pareça mais funcional do que orgânica.

Ainda assim, o episódio acerta em algo importante: finalmente mostra que a história de John e Hal não é apenas sobre anéis, Guardiões e conspirações. É também sobre culpa, ressentimento e a dificuldade de seguir em frente depois de uma experiência que mudou completamente suas vidas. O problema é que Lanternas parece querer resolver esse conflito e continuar usando seus personagens ao mesmo tempo.

“Pega Mal” poderia ter sido uma despedida poderosa para Hal Jordan. Em alguns momentos, chega muito perto disso. O funeral vazio, o discurso deixado pelo personagem e a reação de John sugerem uma série disposta a aceitar a perda e seguir adiante. Então surge o Hal-o-gram.

E, com ele, fica a sensação de que Lanternas ainda não decidiu se quer enterrar seu passado ou simplesmente colocá-lo em uma caixa transparente. Como preparação para a reta final, o episódio cumpre sua função. Como capítulo sobre luto, culpa e encerramento, porém, é menos consistente do que poderia ser.

O próximo passo será descobrir se a morte de Hal realmente abre espaço para uma nova fase da história ou se a série está apenas adiando mais uma revelação.

O sexto episódio de Lanternas está disponível no HBO Max.

Marcus Vinicius
Marcus Viniciushttps://www.meugamer.com/
Entusiasta do universo dos animes, mangás e tokusatsu, também escrevo sobre cinema, séries e as principais tendências da cultura pop japonesa e ocidental. Meu propósito é compartilhar análises, curiosidades e novidades que aproximam fãs desse universo, unindo informação, entretenimento e paixão pela cultura geek. Do clássico ao contemporâneo, exploro o impacto de produções que marcaram gerações, discuto teorias, mergulho em personagens inesquecíveis e acompanho de perto os lançamentos que movimentam a comunidade otaku. Além do Japão, também abordo obras e fenômenos globais que moldam a cultura pop, trazendo conteúdos que despertam nostalgia, reflexão e novas descobertas para quem vive intensamente esse mundo.

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