Crítica | Lanternas – 1×08: Terra e Estrelas

“Terra e Estrelas” encerra a primeira temporada de Lanternas com boas ideias sobre medo, legado e identidade, mas tropeça justamente nas respostas que deveriam transformar a investigação em um grande desfecho.

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Existe algo curiosamente apropriado na maneira como Lanternas encerra sua primeira temporada: a série passa oito episódios tentando encontrar respostas e, quando finalmente chega a hora de oferecê-las, parece não saber exatamente o que fazer com elas.

“Terra e Estrelas” não é o final grandioso que a estrutura da temporada parecia preparar. Não há uma grande batalha cósmica, uma resolução espetacular envolvendo os Guardiões ou um confronto à altura das expectativas criadas pela presença de Sinestro. O episódio prefere conversar, explicar, revisitar acontecimentos e concluir a transformação de John Stewart.

A escolha de um encerramento mais íntimo não é, por si só, um problema. Pelo contrário: algumas das melhores cenas do episódio estão justamente nos momentos em que Lanternas abandona a necessidade de parecer uma grande produção de super-heróis e se concentra em seus personagens.

O problema é que a série chega a esse ponto depois de construir uma investigação que prometia muito mais do que suas respostas conseguem entregar.

Um final que escolhe o drama em vez do espetáculo

É importante reconhecer que Terra e Estrelas tem coragem de contrariar algumas expectativas. Depois de uma temporada marcada por assassinato, conspirações, extraterrestres, Caçadores e uma mitologia cósmica gradualmente apresentada ao público, seria fácil imaginar um episódio final baseado em uma grande sequência de ação.

Não é o que acontece. A conclusão aposta em conversas, decisões pessoais e despedidas. John precisa enfrentar não apenas Noah, mas também tudo aquilo que aprendeu sobre medo, dever e responsabilidade. O personagem passou boa parte da temporada seguindo expectativas estabelecidas por outras pessoas: sua família, os Fuzileiros, os Guardiões e, de certa forma, o próprio Hal.

O melhor aspecto do episódio é justamente perceber John finalmente tomando uma decisão que pertence a ele. É aí que Lanternas encontra seu tema central.

Crítica | Lanternas – 1x08: Terra e Estrelas
Reprodução: HBO Max

John Stewart finalmente escolhe o próprio caminho

A temporada inteira trabalhou com a ideia de que coragem não significa necessariamente ausência de medo. John chega ao episódio final depois de descobrir que o treinamento e a disciplina que recebeu durante toda a vida não são suficientes para responder à pergunta mais importante: quem ele quer ser?

O confronto com Noah funciona porque coloca dois personagens que foram moldados por expectativas externas frente a frente. Noah foi transformado em Caçador e carrega dentro de si uma programação e uma violência que não escolheu completamente. John, por sua vez, foi preparado para se tornar um soldado e, posteriormente, um Lanterna.

A diferença é que John começa a perceber que pode decidir o que fazer com aquilo que recebeu. Por isso, a conclusão envolvendo o juramento é uma das melhores ideias do episódio. Em vez de apresentar John como alguém que simplesmente venceu o medo, a série propõe algo mais interessante: ele pode sentir medo e ainda assim escolher fazer aquilo que considera correto.

É uma interpretação coerente com tudo que a temporada vinha construindo. O problema é que essa boa conclusão está cercada por uma mitologia que nem sempre recebe explicações satisfatórias.

A investigação de Hal finalmente revela seu assassino

Depois de oito episódios perguntando quem matou Hal Jordan, a resposta finalmente aparece: Kerry Kane. No papel, existe uma ideia interessante por trás da revelação. Kerry descobre a verdadeira natureza de Noah e acredita que precisa matar Hal para proteger o filho e preservar a vida que eles ainda poderiam ter.

O problema está na construção. A série não preparou Kerry de maneira suficientemente convincente para que esse momento tenha o peso que deveria. A motivação pode ser compreendida, mas a execução faz com que o assassinato pareça mais uma necessidade do roteiro para encerrar o mistério do que uma consequência inevitável dos acontecimentos anteriores.

A situação fica ainda mais estranha porque Hal não estava simplesmente tentando expor Noah. O personagem também parecia preocupado em proteger a própria família. A morte, portanto, não funciona como uma grande tragédia inevitável. Ela simplesmente acontece. E isso é especialmente frustrante porque Hal Jordan foi uma das peças centrais da temporada.

Crítica | Lanternas – 1x08: Terra e Estrelas
Reprodução: HBO Max

O problema não é matar Hal, mas como a série chega até isso

A morte de Hal poderia ter sido uma excelente escolha. Transformar um dos principais personagens da mitologia em uma figura trágica poderia dar à série uma identidade própria e estabelecer consequências importantes para John. O problema é que Lanternas passa boa parte da temporada alternando entre diferentes versões de Hal sem conseguir construir uma trajetória completamente coerente.

Temos o Hal decadente, o mentor, o homem ressentido, o herói traumatizado e, posteriormente, o holograma de uma versão mais jovem e menos amarga do personagem. Essa última versão, ironicamente, acaba sendo mais interessante do que o próprio Hal vivo. E isso diz bastante sobre o problema.

O holograma consegue ser mais simpático, mais vulnerável e mais aberto com John. Ele permite enxergar a relação que os dois poderiam ter construído caso Hal não tivesse se tornado tão fechado.

Kyle Chandler também consegue extrair muito do personagem mesmo quando o roteiro não oferece material suficiente para ele. Seus flashbacks ajudam a compreender o homem por trás da postura agressiva e tornam sua despedida emocionalmente mais significativa.

Mas, quando a temporada termina, fica a impressão de que Hal foi usado mais como mecanismo narrativo do que como personagem plenamente desenvolvido.

Noah é uma revelação que chega tarde demais

A confirmação de que Noah é um Caçador poderia ser uma grande reviravolta. O problema é que ela aparece tarde demais e exige informações demais para ser assimilada no momento em que a temporada deveria estar concluindo suas principais ideias.

Noah está diretamente relacionado a Zoe, à tecnologia alienígena, aos Caçadores e aos acontecimentos que levaram Kerry a matar Hal. Além disso, sua relação com Sinestro cria uma nova camada para a mitologia. São muitas informações para um único episódio.

A revelação acaba reforçando uma sensação que acompanhou a investigação durante boa parte da temporada: Lanternas parece descobrir suas próprias respostas ao mesmo tempo que o espectador.

Em uma história investigativa, as melhores reviravoltas são aquelas que fazem o público olhar para trás e perceber que as pistas estavam ali desde o início. Aqui, muitas das respostas parecem apenas surgir.

Crítica | Lanternas – 1x08: Terra e Estrelas
Reprodução: HBO Max

Sinestro é o maior desperdício do episódio

Poucos elementos da temporada foram cercados por tanta expectativa quanto Sinestro. Sua presença em Antaan parecia preparar uma conexão importante entre o mistério terrestre e a mitologia cósmica. O episódio anterior ainda havia criado um gancho bastante forte.

Mas “Terra e Estrelas” não sabe aproveitar essa preparação. Sinestro explica parte do que aconteceu, participa da criação de uma lanterna ligada ao medo e oferece a possibilidade de trazer Hal de volta, mas a maior parte dessas ideias não recebe desenvolvimento suficiente.

O personagem simplesmente fica preso naquele planeta enquanto a história segue adiante. É uma participação que parece existir mais para preparar uma eventual continuação do que para concluir a temporada. E isso é particularmente frustrante porque Sinestro poderia ter sido a ponte perfeita entre a investigação mais realista de Rushville e o lado cósmico da mitologia dos Lanternas.

A mitologia também termina mais confusa do que deveria

O mesmo problema aparece na construção das lanternas e na relação entre medo e força de vontade. A temporada parece interessada em reinterpretar a mitologia tradicional e apresentar John como alguém que não necessariamente precisa seguir a estrutura clássica dos Guardiões. É uma ideia interessante. O problema está na execução.

As regras envolvendo o anel, a energia do medo, a lanterna construída por Sinestro e a possibilidade de trazer Hal de volta são apresentadas de maneira pouco clara. Em vez de ampliar o universo, algumas dessas explicações acabam criando novas dúvidas sem estabelecer regras suficientemente sólidas. Isso também expõe uma contradição da série.

Lanternas passou boa parte da temporada tentando construir uma atmosfera adulta, investigativa e relativamente pé no chão. Quando finalmente precisa abraçar sua mitologia cósmica, porém, parece hesitar. Não é totalmente policial. Não é totalmente ficção científica. E também não assume por completo o espetáculo de super-heróis. O resultado é uma mistura que poderia ser interessante, mas que nem sempre encontra equilíbrio.

Crítica | Lanternas – 1x08: Terra e Estrelas
Reprodução: HBO Max

O final funciona quando deixa os grandes mistérios de lado

Curiosamente, as melhores cenas do episódio não estão relacionadas às grandes respostas. Estão nas despedidas. A relação entre John e o holograma de Hal é provavelmente o melhor exemplo. O personagem que deveria ser apenas um recurso narrativo para manter Hal presente acaba se tornando uma das partes emocionalmente mais fortes da temporada.

A despedida entre os dois funciona porque existe afeto ali. Hal não precisa explicar uma conspiração. John não precisa solucionar um assassinato. Os dois simplesmente precisam se despedir. E a ideia de Hal dizer a John para não ter medo de ter medo resume muito bem a trajetória do protagonista. John não precisa se transformar em um herói sem medo. Ele precisa aprender a conviver com ele.

O novo Lanterna Verde

É justamente essa ideia que torna os minutos finais mais interessantes. John não termina a temporada simplesmente como um novo membro da Tropa dos Lanternas Verdes. Ele escolhe um caminho próprio, distante da estrutura tradicional dos Guardiões e disposto a estabelecer sua própria relação com o poder que recebeu.

A cena em que finalmente voa sobre Rushville funciona como encerramento simbólico da jornada. Depois de passar a temporada inteira tentando descobrir quem era, John finalmente aceita a possibilidade de se tornar alguma coisa por escolha própria.

É uma conclusão simples, mas coerente. E talvez seja justamente por isso que ela funcione melhor do que a resolução do mistério.

Crítica | Lanternas – 1x08: Terra e Estrelas
Reprodução: HBO Max

Um final agridoce para uma temporada irregular

“Terra e Estrelas” é um episódio difícil de avaliar porque seus problemas e seus acertos convivem o tempo inteiro. Como drama de personagens, ele tem momentos bastante eficientes. John encontra uma conclusão emocional coerente, o relacionamento com Hal ganha um encerramento tocante e a discussão sobre medo permanece alinhada com aquilo que a série vinha tentando dizer.

Como investigação, entretanto, o episódio decepciona. A revelação de Kerry não possui força suficiente, Noah surge como uma resposta que parece pouco preparada, Sinestro é subaproveitado e boa parte da mitologia criada ao longo da temporada termina sem o impacto esperado.

Mais frustrante ainda é perceber que muitas perguntas levantadas pela série não parecem ter servido a uma construção maior. Rushville, os Guardiões, os Caçadores e toda a conspiração ao redor de Hal deveriam convergir para um grande desfecho, mas acabam formando peças que não se encaixam com a precisão necessária.

Lanternas termina sua primeira temporada com uma contradição curiosa: seu melhor encerramento não está na solução do mistério, mas na jornada de John Stewart para descobrir quem deseja ser.

“Terra e Estrelas” tem boas ideias e alguns momentos genuinamente emocionais, mas não consegue transformar as oito horas anteriores em um clímax satisfatório. A investigação chega ao fim sem a força necessária, a morte de Hal perde impacto por causa da construção insuficiente e Sinestro, que poderia representar a conexão definitiva com a mitologia maior dos Lanternas, termina praticamente como uma promessa para o futuro.

Ainda assim, existe uma boa história escondida nesse final. É a história de um homem que passou a vida acreditando que precisava ser forte, que aprendeu que coragem não significa não sentir medo e que finalmente decide escolher o próprio caminho.

O problema é que Lanternas construiu uma temporada inteira prometendo uma grande resposta e descobriu tarde demais que sua história mais interessante estava em outro lugar. Como conclusão da trajetória de John, funciona.

Como encerramento do mistério de Hal Jordan, decepciona. E como primeira temporada, deixa mais dúvidas sobre o futuro da série do que certezas sobre o que ela realmente queria ser.

 A primeira temporada de Lanternas está disponível no HBO Max.

Marcus Vinicius
Marcus Viniciushttps://www.meugamer.com/
Entusiasta do universo dos animes, mangás e tokusatsu, também escrevo sobre cinema, séries e as principais tendências da cultura pop japonesa e ocidental. Meu propósito é compartilhar análises, curiosidades e novidades que aproximam fãs desse universo, unindo informação, entretenimento e paixão pela cultura geek. Do clássico ao contemporâneo, exploro o impacto de produções que marcaram gerações, discuto teorias, mergulho em personagens inesquecíveis e acompanho de perto os lançamentos que movimentam a comunidade otaku. Além do Japão, também abordo obras e fenômenos globais que moldam a cultura pop, trazendo conteúdos que despertam nostalgia, reflexão e novas descobertas para quem vive intensamente esse mundo.

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