Review | Tojima Wants To Be a Kamen Rider

Um anime com fortes referências a tokusatsu, mas que poderia ser mais do que um shounen padrão.

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A cada nova temporada de animes, fica ainda mais evidente que não existem limites criativos dentro da indústria. Histórias sobre temas improváveis, que vão desde máquinas de venda até mundos paralelos extremamente excêntricos, já se tornaram comuns. Ainda assim, de tempos em tempos, surge uma obra que consegue se destacar justamente por abraçar o absurdo de maneira única. É exatamente esse o caso de Tojima Wants To Be a Kamen Rider. A seguir, confira nossa crítica sobre esta produção.

Ao longo de seus 24 episódios, divididos em dois cours, o anime constrói uma narrativa que mistura humor nonsense, momentos de vergonha alheia e uma realidade levemente distorcida. O resultado é uma experiência curiosa e, surpreendentemente, envolvente, especialmente para quem estiver disposto a embarcar na proposta sem questionar demais.

Uma proposta diferente: A crise dos 40 nos animes

Um dos primeiros pontos que diferenciam Tojima Wants To Be a Kamen Rider de tantas outras produções está em seu protagonista. Em vez de seguir o padrão clássico de um jovem herói, a história acompanha Tojima Tanzaburo, um homem de 40 anos que cresceu assistindo à franquia Kamen Rider em sua época de ouro.

Como muitos fãs, Tanzaburo guarda lembranças de infância marcadas por brincadeiras em frente à televisão, imitando poses e golpes icônicos. No entanto, ao chegar à vida adulta, ele se depara com uma rotina comum e pouco inspiradora. É justamente nesse contexto que surge sua decisão mais improvável: tornar-se um Kamen Rider na vida real.

Essa abordagem dialoga com uma tendência recente na indústria, que tem explorado protagonistas mais velhos e temas ligados à crise existencial da vida adulta. Diferente do tradicional arquétipo shounen, aqui temos um personagem lidando com frustrações, sonhos não realizados e a busca por propósito, algo que pode ressoar especialmente com um público mais maduro.

Enquanto, no mundo real, mudanças como começar a frequentar a academia ou adotar novos hobbies costumam marcar esse tipo de fase, o universo do anime opta por um caminho bem mais excêntrico. Ele mistura elementos realistas com fantasia, permitindo que Tanzaburo enfrente ameaças reais com base apenas em treinamento, determinação e um forte senso de idealismo.

Tojima Wants To Be a Kamen Rider
Imagem: ©LIDENFILMS/Toujima Tanzaburou wa Kamen Rider ni Naritai

Muito além do protagonista: Uma narrativa compartilhada

Embora Tanzaburo seja o ponto de partida da história, o anime não se limita a ele. Pelo contrário, Tojima Wants To Be a Kamen Rider expande seu universo ao apresentar diversos personagens que ganham destaque ao longo da trama, em alguns momentos, inclusive, com o protagonista ficando ausente por episódios inteiros.

Entre os principais nomes, está Yuriko Okada, uma professora que leva uma vida aparentemente comum, mas que nutre o desejo de se tornar Tackle, uma personagem clássica do universo Kamen Rider. Assim como Tanzaburo, ela precisa equilibrar sua identidade secreta com as responsabilidades do cotidiano.

Outros personagens, como Ichiyo Shimamura, que assume o papel de Kamen Rider V3, e Mitsuba Shimamura, focado em se tornar Riderman, ajudam a compor um grupo diverso e inesperado. Apesar da premissa incomum, adultos interpretando heróis de infância no mundo real, o anime consegue construir relações genuínas entre eles.

Essa dinâmica reforça uma das mensagens centrais da obra: por mais peculiar que alguém possa parecer, sempre existe a possibilidade de encontrar pessoas com interesses semelhantes e formar conexões significativas.

Entre o absurdo e o coração: O tom da narrativa

Grande parte do charme de Tojima Wants To Be a Kamen Rider está na forma como ele equilibra elementos aparentemente contraditórios. De um lado, temos cenas que beiram o absurdo, como treinamentos interrompidos por situações completamente aleatórias. Do outro, há momentos de ação, desenvolvimento emocional e até conflitos internos bem construídos.

O anime apresenta batalhas, treinos e dilemas pessoais, mas tudo isso é envolto em uma estética peculiar: adultos usando fantasias em ambientes cotidianos, enfrentando inimigos que, de alguma forma, coexistem com a realidade, como os vilões da organização Shocker.

Essa mistura cria uma experiência única, que pode causar estranhamento em um primeiro momento. No entanto, ao aceitar suas regras, o espectador encontra uma narrativa que, apesar de caótica, possui coerência interna e entrega momentos genuinamente divertidos.

Além disso, a obra carrega um forte elemento de nostalgia. Referências à franquia original de Kamen Rider aparecem constantemente, seja na trilha sonora, em recriações de cenas clássicas ou em pequenos detalhes espalhados pelos episódios. Ainda assim, mesmo quem não tem familiaridade com a série consegue compreender a proposta e se conectar com os personagens.

Review | Tojima Wants To Be a Kamen Rider
Imagem: ©LIDENFILMS/Toujima Tanzaburou wa Kamen Rider ni Naritai

Persistência e identificação: O coração da história

Um dos aspectos mais marcantes do anime é a forma como retrata a persistência de seu protagonista. Mesmo diante de desafios que parecem impossíveis, Tanzaburo continua tentando, levantando-se repetidamente após cada derrota.

Essa postura remete a um idealismo clássico dos heróis, mas aplicado a um contexto mais próximo da realidade. Em muitos aspectos, a jornada do personagem funciona como uma metáfora para os momentos em que tudo parece dar errado, mas seguir em frente ainda é a única opção.

Esse equilíbrio entre humor, absurdo e emoção é o que dá profundidade à obra. Por trás das situações inusitadas, existe uma narrativa sobre propósito, amadurecimento e a importância de não abandonar aquilo que nos faz felizes.

Pontos negativos: Excessos que destoam

Apesar de suas qualidades, Tojima Wants To Be a Kamen Rider não está isento de críticas. Um dos principais problemas está na forma como algumas personagens femininas são retratadas em determinados momentos. Embora figuras como Yuriko possuam motivações próprias e relevância dentro da história, há escolhas visuais que acabam apelando para uma sexualização desnecessária.

Certas cenas destacam atributos físicos ou utilizam enquadramentos que não contribuem para a narrativa, gerando uma quebra de tom em relação ao restante da obra. Esse tipo de abordagem não compromete completamente a experiência, mas causa desconforto e passa a sensação de que tais elementos poderiam ter sido evitados sem prejuízo algum à história.

A série cai nessas armadilhas que shounen fazem para causar impacto visual e trazer a atenção do público jovem masculino para a série, de uma maneira totalmente errada. Tojima Wants To Be a Kamen Rider tem uma coisa que outros shounen não carregam desde a sua estreia, o poder da nostalgia, Kamen Rider é, definitivamente, o maior herói para uma boa parte do público japonês, tanto que segue com séries anuais até hoje.

Então, usar um personagem que representa esse público que cresceu assistindo a série, traz uma camada a mais de interesse a uma porcentagem da audiência que não acompanha tanto anime, mas, ao utilizar ecchi em excesso faz com que esse público só se afaste cada vez mais de obras assim. Existe um nicho a ser explorado em animes baseados em tokusatsu, mas se continuarem a optar por ser um caminho convencional, pode ser que esse nicho não se interesse por esse tipo de obra.

Review | Tojima Wants To Be a Kamen Rider
Imagem: ©LIDENFILMS/Toujima Tanzaburou wa Kamen Rider ni Naritai

Gamerdito: Vale a pena assistir Tojima Wants To Be a Kamen Rider?

No fim das contas, Tojima Wants To Be a Kamen Rider se destaca como uma das produções mais curiosas e imprevisíveis dos últimos tempos. Não é um anime convencional, nem pretende ser. Sua proposta exige uma certa abertura por parte do público, especialmente para aceitar o absurdo como parte fundamental da experiência.

Para quem busca algo diferente, com doses de humor, ação e uma pitada de reflexão sobre a vida adulta, a obra pode ser uma grata surpresa. Por outro lado, aqueles que preferem narrativas mais tradicionais podem encontrar dificuldades em se conectar com o tom da série.

A temporada completa, com 24 episódios, está disponível na Crunchyroll, com opções dubladas e legendadas.

Marcus Vinicius
Marcus Viniciushttps://www.meugamer.com/
Entusiasta do universo dos animes, mangás e tokusatsu, também escrevo sobre cinema, séries e as principais tendências da cultura pop japonesa e ocidental. Meu propósito é compartilhar análises, curiosidades e novidades que aproximam fãs desse universo, unindo informação, entretenimento e paixão pela cultura geek. Do clássico ao contemporâneo, exploro o impacto de produções que marcaram gerações, discuto teorias, mergulho em personagens inesquecíveis e acompanho de perto os lançamentos que movimentam a comunidade otaku. Além do Japão, também abordo obras e fenômenos globais que moldam a cultura pop, trazendo conteúdos que despertam nostalgia, reflexão e novas descobertas para quem vive intensamente esse mundo.

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