Embora o nome de Tomoko Yamashita ainda não seja amplamente reconhecido pelo grande público ocidental, a autora ganhou maior visibilidade fora do Japão com a adaptação em anime de The Night Beyond the Tricornered Window (Sankaku Mado no Sotogawa wa Yoru), exibida em 2021. Apesar de a animação ter ficado aquém da complexidade e da sutileza do material original, ela funcionou como um ponto de inflexão para que o trabalho da autora passasse a ser mais observado internacionalmente. Agora, alguns anos depois, Yamashita retorna ao anime com Journal with Witch, obra originalmente publicada na revista FEEL YOUNG, da editora Shodensha.
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A premissa inicial é simples, mas carregada de peso emocional: Asa, uma adolescente de 15 anos, perde os pais em um acidente e passa a viver com Makio, sua tia materna. A partir desse ponto, Journal with Witch constrói uma narrativa intimista que vai muito além do luto, explorando temas como deslocamento emocional, solidão, convivência forçada e a construção gradual de vínculos afetivos entre duas pessoas que, apesar do laço familiar, são praticamente estranhas uma à outra.
Logo na introdução, antes mesmo da abertura, o anime demonstra uma maturidade narrativa impressionante. A cena inicial mostra Asa e Makio em um momento cotidiano no futuro, quando já existe certa convivência entre elas. O tom leve, quase descontraído, contrasta com o desconforto silencioso presente em pequenos gestos, pausas e olhares. A direção acerta ao comunicar essa estranheza sem recorrer a diálogos explicativos, permitindo que o espectador perceba, junto com Asa, o quanto aquele ambiente ainda é estranho e emocionalmente instável.

A relação entre Makio e sua falecida irmã, mãe de Asa, é apresentada de forma crua e desconcertante. Makio não esconde seu ressentimento, nem mesmo no velório, em uma cena que mistura tragédia e humor amargo. Essa franqueza brutal define muito bem sua personalidade: introvertida, emocionalmente fechada e socialmente deslocada. Incapaz de expressar sentimentos de maneira convencional, Makio recorre a ações práticas, como oferecer comida, quando não sabe o que dizer. Ainda assim, mesmo declarando não querer Asa por perto, ela estabelece um limite ético muito claro: a garota não será humilhada, ignorada ou tratada como um fardo.
É justamente nessa contradição que Journal with Witch encontra sua força. Makio não acolhe Asa por obrigação afetiva, mas por reconhecer nela alguém que, assim como ela, conhece profundamente a solidão. Essa identificação silenciosa é simbolizada visualmente pela recorrente metáfora do deserto, um espaço vasto, isolado e sufocante. A obra sugere que, embora ambas estejam acostumadas a caminhar sozinhas, talvez essa jornada não precise continuar dessa forma.
A escrita de Tomoko Yamashita se destaca por sua delicadeza e economia. Em vez de verbalizar sentimentos óbvios, a autora conduz o leitor, e agora o espectador, a compreendê-los por meio de imagens, silêncios e pequenos gestos. A adaptação em anime capta essa essência com precisão, especialmente em cenas como a conversa sobre o diário, onde se discute a liberdade de não registrar tudo, de esconder ou até mentir. O foco não está na obrigação da expressão, mas na autenticidade do sentimento.

Visualmente, o anime é belíssimo. Produzido pelo estúdio Shuka, conhecido por trabalhos consistentes e cuidadosos, Journal with Witch se beneficia de uma direção sensível e atenta aos detalhes. Sob a direção geral de Miyuki Ooshiro, em sua estreia nessa função, o episódio inicial impressiona pela composição de cenários, pelo uso expressivo dos espaços e pela familiaridade que o ambiente doméstico transmite em pouco tempo. A casa de Makio, com sua bagunça e personalidade, rapidamente se torna um espaço vivo e significativo.
A direção também se destaca pela forma como acompanha o olhar de Asa. O espectador explora os ambientes junto com a personagem, compartilhando sua curiosidade cautelosa e suas percepções silenciosas. Essa escolha reforça a empatia e respeita a proposta narrativa da obra original, que confia na sensibilidade do público para interpretar emoções não ditas.

Journal with Witch estreia como um exemplo raro e valioso de adaptação bem-sucedida de uma obra josei. Sensível, visualmente refinado e emocionalmente honesto, o anime demonstra que histórias voltadas à demografia feminina podem, e devem, receber produções cuidadosas e artisticamente comprometidas. O primeiro episódio é tocante, poético e profundamente humano, deixando claro que estamos diante de uma obra que valoriza sentimentos sutis e relações construídas com tempo, silêncio e respeito. Além disso, o anime está sendo exibido na plataforma da Crunchyroll.
