Review de Gachiakuta: quando a sujeira define o ritmo

Entre estreias e continuações, o anime se destaca por sua originalidade artística

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Quando o estúdio Bones Film foi anunciado como responsável pela adaptação em anime de Gachiakuta, um dos mangás battle shonen mais comentados dos últimos anos, a expectativa do público aumentou imediatamente. Não por acaso: o estúdio carrega um histórico sólido no gênero, com produções consagradas como Fullmetal Alchemist: Brotherhood, Mob Psycho 100, Soul Eater e My Hero Academia. Felizmente, a nova adaptação confirma essa confiança e entrega uma obra que potencializa os pontos fortes do material original criado por Kei Urana. Nesta crítica, apresentamos os pontos que nos levaram a uma conclusão instigante sobre a primeira temporada do anime.

Desde os primeiros episódios, Gachiakuta se destaca pela força de sua animação e pela forma como traduz para a tela a estética urbana, punk e suja do mangá. A direção valoriza o peso dos golpes, a brutalidade dos confrontos e, principalmente, a fúria contida de seu protagonista, Rudo, um jovem marcado pela injustiça e pelo abandono. O que inicialmente pode parecer apenas mais uma narrativa movida por raiva adolescente evolui gradualmente para algo mais complexo, acompanhando o amadurecimento emocional do personagem e explorando o conflito entre ódio, pertencimento e identidade.

A trajetória de Rudo é cruel desde o início. Criado em uma comunidade à margem de uma metrópole opulenta, ele carrega o estigma de ser filho de um criminoso condenado. Após perder a única pessoa que lhe oferecia afeto, Rudo é falsamente acusado de assassinato e descartado como lixo humano em um abismo conhecido como O Poço. O que deveria ser sua sentença de morte se transforma no ponto de partida para uma nova realidade: um vasto deserto de resíduos, abaixo da cidade flutuante chamada Esfera, habitado por monstros formados a partir do próprio lixo da sociedade.

Gachiakuta cenário interessante entre os protagonistas
© Kei Urana, Hideyoshi Andou and KODANSHA/ GACHIAKUTA Production Committee

É nesse cenário hostil que Rudo conhece Enjin, um guerreiro que o introduz aos Zeladores, um grupo responsável por enfrentar essas criaturas usando armas especiais conhecidas como Instrumento Personalíssimo, objetos que manifestam poderes a partir do vínculo emocional de seus usuários. Ao despertar sua própria habilidade, Rudo se junta ao grupo não por heroísmo, mas por vingança: seu objetivo é sobreviver, retornar à Esfera e destruir aqueles que o condenaram.

A série constrói sua narrativa a partir desse ódio profundo, expresso tanto na direção de arte quanto na animação agressiva, marcada por cortes secos e olhares carregados de violência. No entanto, Gachiakuta não glorifica essa raiva de forma simplista. Pelo contrário, o anime reflete sobre os perigos desse tipo de mentalidade, especialmente comum em jovens marginalizados. Conforme Rudo passa a conviver com os membros dos Zeladores, surge um conflito interno: o apego crescente ao grupo desafia sua visão de mundo e transforma sua fúria, que passa a se manifestar de maneiras mais complexas e, por vezes, ainda mais destrutivas.

O elenco de apoio também é um dos grandes trunfos da adaptação. Os design chamam atenção imediatamente, com cortes de cabelo marcantes, figurinos dusterpunk e armas improváveis que reforçam a identidade visual do mundo. Há uma coesão estética que remete a um pós-apocalipse estilizado, onde grafites, arte de rua e senso de comunidade contrastam com a violência e a desigualdade social. Kei Urana se destaca, mais uma vez, na construção de personagens femininas fortes e visualmente impactantes, algo ainda pouco comum no battle shonen tradicional.

Gachiakuta personagens do jogo
(Reprodução)

Mesmo quando alguns personagens funcionam inicialmente como alívio ou coadjuvantes, a série encontra espaço para desenvolver histórias de fundo relevantes, muitas vezes integradas às próprias cenas de ação. Isso garante que os confrontos, especialmente os mais longos da segunda metade da temporada, não sejam apenas espetáculo, mas também momentos de aprofundamento emocional.

Evolução técnica da produção

No aspecto técnico, a Bones Film entrega exatamente o que se espera. As batalhas envolvendo os Instrumentos Vitais equilibram coreografias impactantes com elementos táticos, explorando as habilidades específicas de cada personagem. Embora não alcance o nível de excentricidade de títulos como JoJo’s Bizarre Adventure, o anime aposta nos tradicionais jogos mentais do gênero, em que estratégia e leitura do adversário são tão importantes quanto força bruta.

Em seus momentos mais intensos, a produção conta com nomes de peso da animação japonesa, como Yutaka Nakamura, responsável por sequências de ação visualmente impressionantes, repletas de fluidez, impacto e destruição de cenário. Nem todas as cenas atingem esse ápice, mas o padrão geral se mantém alto. Além disso, a direção consegue integrar emoção e simbolismo visual às lutas, garantindo que elas avancem a narrativa e não se limitem a puro exibicionismo técnico.

Se há um ponto fraco em Gachiakuta, ele está no ritmo inicial. A série demora um pouco para alcançar seus momentos mais explosivos, tanto em termos de ação quanto de desenvolvimento dramático. A apresentação do mundo e das desigualdades sociais é interessante, mas a conexão emocional com Rudo e os Zeladores leva tempo para se consolidar. Algumas mudanças bruscas de tom também podem causar estranhamento, incluindo um episódio particularmente pesado que aborda temas sensíveis e poderia ter sido tratado com maior profundidade.

Gachiakuta e um encontro marcante
© Kei Urana, Hideyoshi Andou and KODANSHA/ GACHIAKUTA Production Committee

Gamerdito review: a 1ª temporada de Gachiakuta vale a pena?

Ainda assim, o saldo é amplamente positivo. Gachiakuta se estabelece como um anime de ação estiloso e competente, que vai além da violência pela violência. A obra dialoga com questões atuais como exclusão social, raiva juvenil e desigualdade estrutural, abraçando de forma genuína a estética da contracultura, do grafite e da arte de rua, inclusive com a colaboração direta de um artista de grafite no mangá original.

Enquanto a Bones Film mantiver esse nível de produção e Kei Urana continuar expandindo esse universo com consistência, Gachiakuta tem tudo para se firmar como um dos battle shonen mais relevantes da atualidade, muito acima da média do gênero e longe de ser apenas mais um título perdido no “lixão” dos animes de ação.

A 1ª temporada do anime de Gachiakuta está disponível na Crunchyroll e conta com as opções dublada e legendada.


Este texto reflete exclusivamente a visão de seu autor e não representa, necessariamente, a posição do MeuGamer.

Marcus Vinicius
Marcus Viniciushttps://www.meugamer.com/
Entusiasta do universo dos animes, mangás e tokusatsu, também escrevo sobre cinema, séries e as principais tendências da cultura pop japonesa e ocidental. Meu propósito é compartilhar análises, curiosidades e novidades que aproximam fãs desse universo, unindo informação, entretenimento e paixão pela cultura geek. Do clássico ao contemporâneo, exploro o impacto de produções que marcaram gerações, discuto teorias, mergulho em personagens inesquecíveis e acompanho de perto os lançamentos que movimentam a comunidade otaku. Além do Japão, também abordo obras e fenômenos globais que moldam a cultura pop, trazendo conteúdos que despertam nostalgia, reflexão e novas descobertas para quem vive intensamente esse mundo.

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