Crítica | A Amante

 

A Amante discute valores de tradições em uma Tunísia recém-democrática

 

A Amante, de Mohamed Ben Attia, coloca em pauta o peso de costumes e tradições em uma era jovem e recém-democrática da Tunísia, país da África do Norte. O drama traz um roteiro bem construído e uma narrativa que não provoca, mas discute de forma muito pertinente e cativante a mudança de valores de uma sociedade ainda muito conservadora.

Em seu primeiro longa-metragem, Ben Attia resolveu pautar questões políticas e religiosas através da vida de um personagem principal, o Hedi (interpretado pelo talentoso Majd Mastoura). Hedi é um jovem que mora com sua mãe e trabalha na parte de vendas em uma concessionária. Além disso, ele está prestes a ter seu casamento arranjado.

No auge de sua juventude, Hedi tem sua vida inteira controlada por sua mãe e pelas tradições de sua região. Apesar disso, o personagem é passivo: ele está sempre mantendo a calma, seguindo o fluxo de sua vida sem reclamar por não conseguir segurar suas próprias rédeas. Hedi é contido e distante, como se ele reprimisse tudo o que incomoda: seja o casamento arranjado, sua mãe tomando todas as decisões importantes por ele ou a empresa que não o deixa nem ao menos tirar férias para sua lua de mel.

Esta situação muda no momento em que Hedi viaja até Mahdia por conta de seu trabalho. Em um resort de qualidade, Hedi enxerga a oportunidade de ser ele mesmo. Antes controlado e inexpressivo, agora ele pode finalmente fazer escolhas e aproveitar sua própria vida sem se restringir à tradição que tem ainda um peso enorme em sua cidade. Neste ambiente de liberdade, Hedi se apaixonada por uma dançarina que trabalha no resort. Ela se torna a amante – ela representa, na verdade, o simples ato de poder escolher.

 

 

Desse modo, A Amante é um filme que trabalha com extremidades: a distância e a proximidade; o frio e o quente. Em uma realidade, Hedi é contido e aceita viver sua vida de acordo com ordens de outras pessoas. Em outra realidade, Hedi é expressivo, tem opiniões fortes e encontra liberdade para fazer o que quiser, independente de sua família ou dos costumes e tradições de seu país.

Essas extremidades do filme são acentuadas através de ferramentas muito úteis na construção audiovisual da narrativa. A Amante mal possui trilha sonora – mas quando ela aparece, é sempre nos momentos de Hedi no resort, de modo que as músicas tenham um impacto perceptível ao retratar a felicidade do protagonista em contato com a liberdade. Lá o ambiente é vibrante: além das músicas, a fotografia é mais viva e as cores são mais fortes, diferente da outra realidade de Hedi onde não tem trilha e as cores são mais neutras.

Por fim e acima de tudo, A Amante questiona os valores antigos ainda muito presentes na nossa sociedade – especificamente aquelas que ainda são muito conservadoras em questões como casamento e religião. Os valores estão mudando? As tradições já não estão tão firmes? O que se passa na cabeça de um jovem do século XXI ao ter de lidar com esse conservadorismo? Essas respostas não são respondidas pelo filme, mas são muito bem articuladas.

A Amante nos mostra que, ao mesmo tempo que os jovens estão em um momento de questionar regras e costumes impostos a eles, os mesmos jovens não conseguem abrir mão completamente de suas tradições – o motivo disso fica em aberto para o espectador se perguntar. Uma coisa é certa: o filme é ótimo em mostrar a vontade do jovem de ser independente, mas sua dificuldade em sair da zona de conforto. E isso transcende as barreiras de tempo e espaço.

Nota da Crítica

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