Crítica | O Orgulho

 

Através de personagem de origem árabe, O Orgulho explora o preconceito contra imigrantes na França

 

Dirigido por Yvan Attal, O Orgulho é um filme bem articulado que se esforça em quebrar preconceitos, mas seu esforço deixa a desejar a medida em que não traz a evolução de caráter que o espectador espera assistir.

A questão dos imigrantes está, cada vez mais, ganhando importância como pauta a ser discutida. Pensando nisso, O Orgulho traz ao espectador o preconceito centrado em Neila Salah (Camélia Jordana), personagem francesa de origem árabe que sonha em ser advogada. Neila frequenta uma faculdade tradicional de direito e, para conquistar seu objetivo, a personagem se vê na obrigação de ter Pierre Mazard (Daniel Auteuil) – professor preconceituoso que fala o que bem entender – como seu mentor. Desse modo ambos terão que superar o orgulho: ele, por ser uma pessoa cheia de julgamentos e não enxergar potencial na aluna; ela, por se recusar a aceitar qualquer ensinamento de uma pessoa como ele.

O preconceito enfrentado por Neila toma diferentes formas ao longo do filme, mas é sempre constante. Desde o segurança negro da faculdade até o professor branco e já de idade, Neila está sempre sob olhares críticos e desrespeitosos. Os comentários preconceituosos que a personagem enfrenta são feitos o tempo todo por pessoas diferentes e envolvem tanto sua aparência quanto seu nome, ambos com traços árabes. Assim, o espectador entra em contato com essa realidade de forma bem crua: beira o intolerável ver cenas como a do primeiro debate de Neila no tribunal, onde seu adversário faz comentários extremamente preconceituosos (sim, em um tribunal) e ninguém faz nada a respeito – muito pelo contrário, muita gente aplaude os comentários.

A posição humilhante em que Neila se encontra é reforçada constantemente por técnicas como o figurino, a fotografia e a direção. Na cena dita sobre o tribunal, por exemplo, a câmera grava o oponente de baixo para cima, dando a impressão de que ele é cruelmente grandioso e tem o controle sob a situação (e, de fato, ele ganha o debate). Além disso, O Orgulho sabe trabalhar com as cores frias e quentes – cores frias em cenas que ilustram a falta de esperança, a humilhação ou a tristeza sentida por Neila e cores quentes onde o quadro se inverte e a personagem tem esperança em seu professor, em seu futuro e em sua vida amorosa. É claro que isso não é uma regra e, portanto, não é válida para todas as cenas, mas a essência da obra procura seguir esse padrão de cores.

 

 

Quanto ao figurino, ele procura sempre tentar traduzir quem a personagem é ao longo do filme. No começo, Neila quer simplesmente se camuflar, quer ser invisível – pois ser notada significa ser desrespeitada. Assim, a personagem usa roupas pouco chamativas: moletom e jaqueta com tons como o verde-musgo e o vinho desbotado, por exemplo. Ao longo do filme, no entanto, Neila muda sua personalidade conforme vai adquirindo confiança nela mesma e conquistando seu lugar na área de direito. Assim, suas roupas passam a ter mais destaque: moletom com tons mais vivos, como amarelo-mostarda, ou roupas mais sérias, como terno esportivo feminino. Por fim, depois de passar por uma crise de identidade, Neila volta a usar roupas mais discretas, mas dessa vez não são as mesmas roupas que a tornam “invisível”, são roupas que misturam seus dois estilos.

Apesar desses detalhes bem pensados e articulados, o filme peca em seu ponto principal – o roteiro. O Orgulho nos apresenta Pierre, um professor já com idade, caucasiano, racista e amargo e faz com que o espectador crie simpatia por ele. Diferente de Neila (que soube superar seu orgulho e realmente cresceu por conta disso), Pierre não mostra qualquer evolução ao longo do filme, muito pelo contrário: seus comentários desrespeitosos e seu jeito amargo de ser continuam até o final. Assim, vemos um desfecho frustrante onde o “vilão” da história não cresce, não aprende, não melhora – e, mesmo assim, ainda tem sua recompensa. Pode ser até que sua evolução tenha ficado estampada em um olhar ou em gesto, mas, por se tratar de um assunto sério e realista como o preconceito, é esperado que o personagem se redima de um jeito mais elaborado – mesmo que seja por um simples pedido de desculpas (algo que não acontece em momento algum). Desse modo, a impressão que fica é a de que O Orgulho naturaliza o preconceito através de um roteiro problemático e, em determinados momentos, até se aproveita disso para dar um ar cômico à história.

É claro que, por outro lado, o longa-metragem também nos traz ensinamentos e questionamentos valiosos, além de uma excelente direção que carrega significado em cada movimento de câmera. O Orgulho consegue quebrar paradigmas e nos mostra de forma emocionante como aqueles desprovidos de privilégios devem agarrar toda e qualquer oportunidade que apareça pela frente – pois, afinal de contas, a sociedade é quem tem muito a aprender com eles. O Orgulho também coloca em pauta como o sucesso pode subir à cabeça e como é importante saber conquistar seus sonhos sem deixar de ser quem você é.

Apesar de algumas falhas – especialmente no que diz respeito ao roteiro – O Orgulho é uma jornada emocionante de alguém que merece ser vista e respeitada como qualquer outro cidadão de (no caso) origem francesa. Só pelo assunto abordado e pelo ensinamento que ele nos deixa, o filme já vale a pena.

Crítica | O Orgulho


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