Crítica | Kaguya: A Princesa Espacial

Entre o passado e o futuro, Kaguya descobre que o verdadeiro destino é escolher quem se quer ser

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A chegada de Kaguya: A Princesa Espacial à Netflix marca uma releitura ousada de um dos mitos mais tradicionais do Japão, o clássico O Conto do Cortador de Bambu. Sob direção de Shingo Yamashita, o filme opta por não competir diretamente com versões anteriores, como a adaptação do Studio Ghibli, e constrói uma proposta própria ao deslocar a narrativa para um universo contemporâneo e futurista, atravessado por cultura digital, ficção científica e reflexões sobre identidade.

A trama acompanha o surgimento de Kaguya em um mundo que mistura o cotidiano urbano com ambientes virtuais e elementos espaciais. Criada longe de sua origem, a personagem cresce dividida entre o destino que lhe foi imposto e o desejo de construir a própria trajetória. Em paralelo, a narrativa apresenta figuras humanas que orbitam sua presença e são transformadas por ela, reforçando o papel da princesa como catalisadora de mudanças, mais do que como protagonista tradicional.

Essa abordagem amplia o escopo do conto original. Em vez de uma fábula centrada apenas na despedida e na transitoriedade da vida, o filme investe em temas contemporâneos como pertencimento, relações mediadas por telas e a busca por autonomia em uma sociedade hiperconectada. O universo digital e performático surge como extensão natural do cotidiano, não como crítica moral direta, mas como parte do ambiente em que os personagens constroem suas identidades.

Ao mesmo tempo, a obra abraça uma linguagem estética expansiva. A animação alterna momentos de intimidade com sequências grandiosas, cores saturadas, ambientações virtuais e passagens musicais que reforçam o caráter híbrido do projeto. Em seus melhores momentos, essa mistura cria uma experiência visual marcante e inventiva; em outros, contribui para uma sensação de excesso que impacta o ritmo e a coesão narrativa.

Kaguya: A Princesa Espacial, uma das personagens do Anime
Imagem: Studio Colorido/Studio Chromato

O roteiro demonstra ambição ao tentar conciliar comentário social, drama existencial e espetáculo audiovisual, mas nem sempre encontra equilíbrio. Subtramas pouco exploradas e personagens coadjuvantes subdesenvolvidos reduzem o peso emocional de algumas passagens. Ainda assim, a essência da história permanece: a tentativa de romper expectativas e definir o próprio caminho diante de pressões externas.

No campo temático, Kaguya: A Princesa Espacial se destaca ao reposicionar a protagonista como símbolo de liberdade e transformação. A obra discute, ainda que de forma desigual, questões como autonomia feminina, construção de identidade e o impacto das estruturas sociais sobre escolhas individuais. A ficção científica e o ambiente digital funcionam menos como espetáculo e mais como metáforas para esse conflito.

O resultado é uma animação que se distancia de adaptações tradicionais e assume um perfil mais autoral e experimental. Não é uma narrativa linear nem necessariamente acessível a todos os públicos, mas se destaca pela disposição em reinterpretar um mito clássico sob lentes contemporâneas, explorando o encontro entre tradição e modernidade.

No fim, o filme encontra sua força justamente nessa tensão. Entre o íntimo e o grandioso, o clássico e o futurista, Kaguya: A Princesa Espacial propõe uma reflexão sobre o direito de escolher o próprio destino, mesmo quando o mundo, real ou virtual, parece já ter decidido por nós.

Kaguya: A Princesa Espacial, personagens do anome com gatinho
Imagem: Studio Colorido/Studio Chromato

Gamerdito: Kaguya: A Princesa Espacial é bom?

Em síntese, Kaguya: A Princesa Espacial consegue reinterpretar um dos mitos mais conhecidos da cultura japonesa sob uma ótica futurista e emocionalmente sensível. A narrativa não se apoia apenas no espetáculo visual ou no cenário tecnológico, mas prioriza o desenvolvimento interno da protagonista e suas escolhas, criando uma conexão genuína com o público.

Ao transportar a história para um contexto espacial e contemporâneo, a obra amplia o debate sobre identidade, pertencimento e liberdade individual. Kaguya passa a representar não apenas uma figura lendária, mas também um reflexo das inquietações modernas: o desejo de autonomia, a busca por propósito e o peso das expectativas impostas pela sociedade e por suas próprias origens.

Dessa forma, o anime se consolida como uma produção que equilibra tradição e inovação, mostrando que temas humanos universais permanecem relevantes mesmo em cenários futuristas. A jornada da protagonista reforça que, independentemente do tempo ou do espaço, são as relações, as decisões e a construção da própria identidade que realmente definem quem somos.

Marcus Vinicius
Marcus Viniciushttps://www.meugamer.com/
Entusiasta do universo dos animes, mangás e tokusatsu, também escrevo sobre cinema, séries e as principais tendências da cultura pop japonesa e ocidental. Meu propósito é compartilhar análises, curiosidades e novidades que aproximam fãs desse universo, unindo informação, entretenimento e paixão pela cultura geek. Do clássico ao contemporâneo, exploro o impacto de produções que marcaram gerações, discuto teorias, mergulho em personagens inesquecíveis e acompanho de perto os lançamentos que movimentam a comunidade otaku. Além do Japão, também abordo obras e fenômenos globais que moldam a cultura pop, trazendo conteúdos que despertam nostalgia, reflexão e novas descobertas para quem vive intensamente esse mundo.

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