Dirigido por Lee Sang-il, Kokuho – O Preço da Perfeição se destaca como uma das produções japonesas mais ambiciosas dos últimos anos. Inspirado no romance homônimo de Shuichi Yoshida, publicado em 2018, o longa transforma uma história sobre teatro kabuki em um retrato profundo sobre identidade, tradição e o preço pessoal cobrado pela busca da excelência artística.
Com quase três horas de duração, o filme acompanha a trajetória de Kikuo, um jovem que encontra no kabuki não apenas uma profissão, mas um destino capaz de consumir toda a sua vida. Ao mesmo tempo em que apresenta ao público ocidental a riqueza dessa arte centenária, o longa constrói um drama humano sobre talento, herança cultural e obsessão.

A jornada de um artista marcado pela perda
A narrativa começa em meados da década de 1960, quando Kikuo, ainda adolescente, chama a atenção de um consagrado ator de kabuki após uma apresentação. Pouco depois, a vida do jovem muda drasticamente ao testemunhar a morte do próprio pai em um confronto envolvendo a Yakuza.
Órfão e sem rumo, ele passa a ser acolhido por um mestre do teatro kabuki, iniciando um rigoroso treinamento ao lado do filho do mentor. Entre os dois nasce uma relação marcada simultaneamente por amizade e rivalidade, um conflito que se intensifica à medida que ambos avançam em suas carreiras.
Nesse contexto, o filme explora uma das particularidades mais intrigantes do kabuki: a importância da linhagem familiar. Tradicionalmente, os papéis e posições de destaque costumam ser herdados dentro das mesmas famílias, o que cria um choque inevitável entre talento individual e tradição hereditária, um dilema central na jornada do protagonista.
Kabuki: tradição, beleza e sacrifício
Um dos grandes méritos do longa está na forma respeitosa e detalhada com que retrata o universo do kabuki. Criado no Japão do século XVII, o gênero teatral possui uma estética própria, marcada por figurinos exuberantes, maquiagem elaborada e movimentos corporais altamente estilizados.
Como mulheres foram proibidas de atuar no kabuki durante o período do xogunato, surgiram os onnagata, atores homens especializados em interpretar papéis femininos. Essa tradição, mantida até os dias atuais, ocupa posição central no filme, tornando-se símbolo da dedicação quase absoluta exigida dos artistas que desejam alcançar reconhecimento máximo dentro dessa arte.
Nas sequências de palco, Lee Sang-il aposta em uma abordagem que mistura cinema e teatro. A câmera observa atentamente os gestos dos intérpretes, valoriza os detalhes da maquiagem e utiliza closes intensos para capturar as expressões que traduzem emoções profundas sem necessidade de grandes diálogos.

Atuações que sustentam a força dramática
Apesar da narrativa extensa e de alguns momentos em que o ritmo se torna irregular, o filme encontra sua força no elenco. Ryo Yoshizawa, responsável por interpretar Kikuo na fase adulta, entrega uma atuação marcada pela contenção e pela intensidade emocional.
Seu trabalho transmite com precisão o conflito de um homem dividido entre a devoção à arte e os traumas que carregou ao longo da vida. Sem recorrer a exageros dramáticos, o ator constrói um personagem silencioso e melancólico, cuja obsessão pela perfeição acaba afastando tudo o que existe fora do palco.
Mesmo participações menores deixam impacto. A atriz Minami Hamabe, por exemplo, aparece brevemente como a filha do protagonista, mas sua presença funciona como um importante contraponto moral, confrontando o artista com as consequências das escolhas que o levaram ao topo.
Direção paciente e estética impressionante
A direção de Lee Sang-il demonstra grande confiança em seus intérpretes. Em vez de recorrer a cortes rápidos ou à dramatização excessiva, o cineasta permite que as cenas respirem e que o peso emocional se construa gradualmente por meio de silêncios e gestos.
Visualmente, o filme impressiona pela reconstrução meticulosa dos palcos e bastidores do kabuki. Figurinos detalhados, maquiagem elaborada e cenários cuidadosamente planejados contribuem para uma experiência estética rica, reforçando a sensação de imersão em uma tradição artística secular.
Não à toa, o trabalho técnico do longa chamou atenção internacionalmente, garantindo inclusive uma indicação ao Oscar 2026 na categoria de Melhor Maquiagem e Penteado.

Gamerdito: Kokuho – O Preço da Perfeição é bom?
Mais do que um retrato sobre teatro, Kokuho – O Preço da Perfeição é uma reflexão sobre o custo humano da busca pela excelência. A dedicação absoluta exigida pela arte transforma o protagonista em alguém incapaz de manter vínculos fora do palco, levantando uma questão inevitável: até que ponto vale sacrificar tudo em nome da perfeição?
Embora o roteiro apresente algumas irregularidades no desenvolvimento de certos conflitos e utilize saltos temporais que, por vezes, enfraquecem o impacto dramático, o conjunto da obra permanece poderoso. O filme consegue capturar a beleza e a dureza do kabuki, revelando como, por trás de uma tradição admirada, existe também uma trajetória marcada por renúncias profundas.
Ao final, Kokuho se estabelece como um grande épico dramático sobre arte, obsessão e identidade, uma obra que não apenas apresenta ao público a grandiosidade do kabuki, mas também questiona o preço que se paga para transformar talento em legado.
O filme estreia nos cinemas no dia 05 de março, com distribuição da Sato Company.
