Crítica: O Velho Fusca

O Velho Fusca transforma carro antigo em metáfora sobre memória, família e a urgência das relações analógicas

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“O Velho Fusca”,  filme dirigido por Emiliano Ruschel com roteiro de Bill Labonia, nos apresenta Júnior, um jovem que descobre na garagem da família um antigo Fusca que pertence ao avô. O que parece ser apenas um carro esquecido acaba trazendo à tona memórias e conflitos que marcaram a história familiar.

Mais do que um objeto, o veículo se transforma em um personagem dentro da narrativa. Assim como o próprio avô, interpretado por Tonico Pereira, o Fusca carrega marcas do tempo, do abandono e de um passado que nunca foi resolvido. O elenco possui peças importantes do cinema nacional, reunindo nomes novos e veteranos, como Caio Manhente (Junior), Cleo Pires (Elaine), Danton Mello (Mauricio), Christian Malheiros (Jeff), Gabriel Rocha (Guiga), Giovanna Chaves (Laila), Isaías Silva (Rica), King Saints (Gina), Nina Sofia (Catirina), Rodrigo Ternevoy (Tio Beto), Tonico Pereira (Vovô), Victor Pinto (Pepe) e Yuri Marçal (em participação especial), entre outros.

O Fusca como metáfora

Ao longo do filme, podemos observar, que o processo de reativação do Fusca abandonado acontece em paralelo à reconstrução das relações familiares e à própria evolução dos personagens, especialmente avô e neto. Enquanto o carro é revitalizado, também inicia-se um movimento de reaproximação e reparação de vínculos que haviam sido deixados no passado.

Fusca do filme O Velho Fusca em destaque na narrativa
(Reprodução/A24 Filmes)

A leitura foi confirmada pelo próprio diretor Emiliano Ruschel em coletiva realizada no dia 9 de março. No filme, o Fusca deixa de ser apenas um elemento narrativo e passa a ocupar um papel simbólico central: assim como o avô, o carro carrega marcas do tempo, do abandono e de memórias acumuladas. Antes da intervenção de Junior, personagem de Caio Manhente, ambos parecem parados no tempo. Cleo Pires e Danton Mello voltam a atuar juntos no cinema, agora nos papéis de pais do personagem vivido por Manhente. O jovem também busca aceitação e lida com a frustração da competição por espaço, enquanto reúne coragem para se declarar para Laila, a garota descolada e popular.

Da mesma forma, segundo Emiliano, a ordem da palavra “Velho” no título também foi uma escolha estratégica.

Personagens Laila e Junior no Filme O Velho Fusca
(Reprodução)

O retorno do analógico

Oportunamente, “O Velho Fusca” entra também em cena em um momento cultural em que o analógico e o vintage voltam a ganhar espaço e valorização no mercado. Em uma era marcada pela forte presença do digital e com o estado cada vez mais “líquido” das relações contemporâneas, o filme aposta na força dos encontros presenciais, conversas entre gerações e memórias compartilhadas.

Essa ideia é reforçada pela própria construção visual da obra. A presença discreta de aparelhos digitais, bem como uma fotografia mais “suja” foram escolhas essenciais para que o filme trouxesse um ar quase que atemporal, onde podemos imaginar sua história situada em diferentes períodos.

Um encontro de gerações 

Outro ponto interessante é a trilha sonora do filme. Com vozes que vão de Jorge Aragão a Giovanna Chaves, a produção do longa apresenta uma trilha muito característica, que além de reforçar a mensagem do filme, ressalta a importância dos encontros, à medida que promove para além das telas essa troca entre gerações da nossa música brasileira. 

Entre drama familiar e reconciliação 

A interpretação do experiente ator Tonico Pereira é instigante e acrescenta um apoio moral ao protagonista, especialmente considerando que a relação entre pai, filho e neto é um ponto de tensão na trama. Entretanto, apesar da boa evolução na relação entre avô e neto — muito bem interpretados, diga-se de passagem —, o conflito que originalmente dividiu a família acaba sendo explorado de maneira muito sutil. O drama que motivou esse rompimento e questões relacionadas à paternidade e à masculinidade aparecem, mas sem muito aprofundamento. Entendo que isso possa se tratar também de uma escolha intencional de seus idealizadores.

Família em cena do filme O Velho Fusca com foco na relação entre gerações
(Reprodução)

Ainda assim, o filme surpreende positivamente ao passo que aposta em uma narrativa sensível e acessível, perfeita para levar a família ao cinema e gerar boas reflexões. 

Ao final, “O Velho Fusca” nos lembra que, assim como um carro antigo, certas relações precisam apenas de tempo, cuidado e disposição para seguir caminho. A produção estreia agora dia 19 de março nos cinemas brasileiros

Bora ver um filme nacional?!


Esta crítica é baseada no que presenciamos quando fomos convidados pela A2 Filmes e sua assessoria para analisar este longa-metragem nacional. Não há qualquer tipo de influência por parte das mesmas, servindo apenas como base para informar nossa audiência e indicar produções brasileiras.

Betina Batista
Betina Batistahttps://www.meugamer.com/
Criadora e comunicadora apaixonada por arte e narrativas culturais, também tem grande interesse por teatro e pelas diferentes formas de expressão artística. Busca constantemente explorar novas linguagens e, quem sabe, trilhar um caminho no cinema no futuro.

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