A Electronic Arts divulgou em 3 de fevereiro de 2026 seus resultados preliminares do terceiro trimestre do ano fiscal de 2026, referente ao período encerrado em 31 de dezembro de 2025. Os números chamam atenção logo de cara com US$ 3.046 bilhões em reservas líquidas, um crescimento de 38% na comparação anual. No papel, é um trimestre histórico. Fora do papel, o relatório revela um modelo cada vez mais previsível — e caro de sustentar.
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O grande motor desse desempenho atende por um nome conhecido: Battlefield 6. Tratado pela própria EA como um lançamento “marco”, o novo shooter se consolidou como o jogo de tiro mais vendido de 2025, além de quebrar recordes de engajamento dentro da franquia. O problema é que, ao olhar o conjunto do relatório, fica evidente que o sucesso do título não representa uma virada estratégica, mas sim a repetição de uma fórmula já conhecida.
Vendas em alta, lucro em queda
Apesar do recorde em reservas, o lucro líquido da EA caiu 70%, fechando o trimestre em US$ 88 milhões. O operating income também despencou, evidenciando um descompasso claro entre faturamento e rentabilidade.
As despesas operacionais totais cresceram 22% em relação ao ano anterior, impulsionadas principalmente por:
- Pesquisa e desenvolvimento, que ultrapassou US$ 700 milhões, refletindo o custo elevado de manter jogos como serviço;
- Marketing e vendas, com alta de 42%, sustentando lançamentos de grande porte como Battlefield 6;
- Custos ligados à aquisição em andamento, que somaram US$ 53 milhões apenas no trimestre.
Contudo, a EA vende mais, mas gasta em um ritmo que pressiona diretamente suas margens. A margem operacional GAAP caiu para 6,7%, bem distante dos picos recentes, enquanto o resultado non-GAAP também mostrou retração significativa.
O mesmo trio sustenta tudo
O relatório deixa pouco espaço para dúvidas sobre onde está o dinheiro da EA. Mais uma vez, o desempenho da empresa foi sustentado quase exclusivamente por franquias consolidadas:
- Battlefield, agora reposicionado como principal força de vendas;
- EA Sports FC, que segue estável graças ao Ultimate Team e ao mobile;
- Apex Legends, mantendo relevância por meio de eventos e atualizações constantes.
Os serviços ao vivo representaram cerca de 67% da receita total, confirmando que o modelo de recorrência segue sendo o eixo central do negócio. Em contrapartida, o documento praticamente ignora qualquer avanço concreto em novas propriedades intelectuais, reforçando a percepção de que a empresa prefere espremer marcas já conhecidas a assumir riscos criativos.
Caixa forte, apetite criativo reduzido
Financeiramente, a EA segue confortável. O fluxo de caixa operacional no trimestre foi recorde, o caixa chegou a US$ 2.784 bilhões, e os dividendos continuam sendo distribuídos normalmente. Para investidores, o cenário é seguro. Para quem acompanha a indústria criativa, é pouco inspirador.
Esse conservadorismo tende a se intensificar com a aquisição em andamento, avaliada em cerca de US$ 55 bilhões, prevista para ser concluída no primeiro trimestre do ano fiscal de 2027, entre abril e junho de 2026, dependendo das aprovações regulatórias. A ausência de uma call de resultados reforça esse momento de transição — e de silêncio estratégico.
Um trimestre forte, mas revelador
O Q3 FY26 mostra uma Electronic Arts eficiente em gerar caixa e extrair valor de suas franquias, mas cada vez mais dependente delas. Battlefield 6 salvou o trimestre, inflou números e sustentou o discurso de crescimento, mas não resolve o problema estrutural de uma empresa que aposta pouco em renovação.
A EA entra em 2026 sólida financeiramente, porém previsível criativamente. O relatório impressiona mais pelo volume de dinheiro movimentado do que por qualquer sinal real de evolução no portfólio ou na visão de longo prazo. Com algumas franquias ainda em dúvida se podem render algo no futuro como Dragon Age e o próprio Mass Effect ambos da Bioware.
