30 dias no Roblox: relatos reais sobre isolamento e riscos no ambiente digital

Após 30 dias imerso em um dos maiores universos virtuais do mundo, um retrato das relações, fragilidades e vínculos que nascem além da tela

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Depois de trinta dias dentro do Roblox, eu já não falo mais de jogo. Falo de pessoas.

Entrei por curiosidade, para observar o que acontecia depois da história da autenticação facial, dos protestos em Brookhaven e do risco de colapso — medidas que faziam parte de um processo interno da Roblox Corporation. Ainda assim, parte dos usuários passou a relacionar essas mudanças ao criador de conteúdo Felipe Zaghetti (Felca), sem que houvesse vínculo direto com a decisão. Saí com um caderno cheio de nomes inventados e dores verdadeiras.

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Os vínculos invisíveis dentro do Roblox

Logo no começo, apareceu uma mulher que dizia ter sido abandonada pela mãe e criada pela avó. Mais tarde, descobri que hoje vive com o marido, com a filha pequena nos braços. Apenas reorganizou a narrativa. O avatar carregou o sofrimento. A vida real ficou com a esperança. E ninguém desfez a troca.

Personagens virtuais de Roblox com expressão de tristeza
(Reprodução)

Também conheci uma menina que, desde os quatro anos, via o padrasto agredir a mãe. Aos doze, começou a se cortar. Cresceu. Hoje tem vinte e um anos, mas carrega o mesmo silêncio. No Roblox, se apaixona em segundos. Quando alguém pergunta onde ela mora, desaparece. O medo de existir fora da tela é maior que a vontade de ser resgatada.

Em outra sala, uma mãe solo fazia lives todos os dias. Câmera ligada, filho no quarto ao lado. Quando um homem perguntava “como você está?”, ela já esperava a agressão. Cortava antes de ouvir. Ficava sozinha, iluminada pela tela. Chamava aquilo de liberdade. Era apenas defesa.

Havia também um garoto de dezesseis que dizia ter dezenove. Copiava frases prontas para parecer mais velho. Uma mulher de trinta entrava no chat achando que era conversa casual. Falava da vida, falava das dores. Ele acreditava. Ela saía. Ele chorava. Para ela, tinha sido só um jogo. Para ele, abandono.

Entre essas histórias, há outro garoto de dezesseis anos. A mãe foi embora, o irmão foi assassinado. Com o pai, o convívio é feito de silêncio, tensão e conflitos que nunca se resolvem. Em casa, não há conversa, só presença física. O computador vira refúgio. No Roblox, ele encontra vínculo. Tem uma namorada, ainda que virtual, próxima o suficiente para parecer real. Essa relação o mantém motivado, dá motivo para voltar, para continuar. Fora da tela, sente rejeição. Dentro do jogo, sente que existe para alguém. Ninguém percebe essa troca. Nem o pai. Nem quem olha de fora e enxerga apenas um jogo. O silêncio permanece, grande demais para ser dividido.

Além disso, há aqueles que acompanham de perto o que os filhos fazem no Roblox, acessando a plataforma junto com a criança e monitorando cada detalhe. Em alguns casos, o responsável acaba entrando na dinâmica do roleplay dentro do jogo. Em momentos de solidão — como quando o marido trabalha em outra cidade — o ambiente virtual vira válvula de escape depois de um dia cansativo. Ainda assim, tudo acontece com atenção redobrada, observando cada passo do filho.

Em outros cantos, quem tinha Robux virava referência. Carro chamativo, roupa rara nos avatares. As pessoas se aproximavam pedindo ajuda, atenção, vantagem. Quando o dinheiro acabava, o prestígio sumia. O seguidor aprendia que, ali, amizade tem custo.

Teve quem perdesse a conta e, junto, perdesse o relacionamento. Voltava do zero e não procurava ninguém do passado. “Agora sou outro.” O abandono virava método. Sumir virava prática.

Tudo isso é tratado como normal. Porque no Roblox, normal é fingir. É contar histórias que não são suas. É criar laços com ausências. É acreditar que sentimento tem botão de desligar.

O que ficou claro para mim é que o problema não é o jogo. É jogar sem avisar que aquilo ainda é jogo.

Adolescentes mentem a idade para serem ouvidos. Adultos falam demais sem saber com quem estão falando. E os pais? Acreditam que é só tela. Estão no sofá, tranquilos, olhando feeds e noticiários.

Tela de conversa digital com troca de mensagens entre perfis sem identificação real
(Reprodução)

Então como acompanhar sem invadir?

É simples. Sentar ao lado. Perguntar quem é aquela pessoa. Não tomar o controle, dividir. Jogar junto. Observar o chat. Observar as reações. Quando o filho diz “é só um amigo”, perguntar se ele já viu essa pessoa fora dali.

Não é preciso gritar. É preciso presença. É preciso lembrar que, aos quinze, tudo dói mais. Que nessa idade se acredita que o amor pode começar num teclado.

É preciso ensinar limites: pode entrar, pode se divertir, mas não pode entregar o que ainda não sabe proteger. Porque o que se entrega sem cuidado raramente volta inteiro.

Os pais não são culpados por não saber. Mas são responsáveis por querer saber.

E o filho não precisa aumentar a idade para conversar. Precisa aprender a medir a verdade. Entender que quem não mostra rosto, não mostra vida, não mostra nome — é apenas sombra.

No Roblox todo mundo tem avatar.
Só o mundo real tem endereço para chorar.

Esses trinta dias no Roblox me fizeram refletir sobre como a era digital tem isolado as pessoas do que é real, a ponto de preferirem o virtual. Isso não significa que tudo seja vazio. É possível construir amizades verdadeiras quando há filtro, consciência e limite. Também há quem entre apenas para passar o tempo, como em qualquer jogo casual, sem compromisso além do entretenimento.


Nota editorial:
Os depoimentos mencionados são autênticos. Identidades, nomes e elementos que possam permitir reconhecimento foram alterados ou suprimidos para preservar os envolvidos. Ao expor dinâmicas que envolvem violência doméstica, sofrimento psíquico e vulnerabilidades no ambiente digital, o objetivo não é sensacionalizar, mas evidenciar fragilidades que atravessam a experiência online e exigem debate público qualificado. Eventuais semelhanças com situações ou pessoas específicas não configuram identificação deliberada. Casos de violência, abuso ou qualquer forma de violação de direitos devem ser denunciados aos canais oficiais competentes, para que sejam devidamente apurados e interrompidos.

Como o Disque 180 e o Disque 100, ou às autoridades policiais competentes. Denúncias relacionadas a crimes e violações na internet também podem ser encaminhadas à SaferNet Brasil, organização da sociedade civil que atua em cooperação com o Ministério Público.

Jefão Calheiro
Jefão Calheiro
Apaixonado por games, filmes de ficção científica, séries e tudo que envolve tecnologia e inovação, com mais de 15 anos de experiência comentando e analisando esses temas. Além disso, sou curioso por astronomia e, nas horas vagas, tento observar o cosmos como um astrônomo amador. Acredito no poder das opiniões e no respeito à diversidade de pensamentos. Em minhas análises, busco compartilhar conhecimento de maneira clara e acessível, ajudando o público a se conectar com as novidades do mundo do entretenimento e da tecnologia. Ah, e como bom flamenguista, vibro junto com o maior clube brasileiro, o Flamengo! Vamos, gamernéfilos, porque todo dia tem novidade nesse universo em constante expansão. =)

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