O Marvel Studios atravessou um período particularmente irregular em 2025, em um ano que evidenciou tanto o desgaste de algumas fórmulas quanto a dificuldade do estúdio em manter um padrão consistente de entusiasmo entre público e crítica. Depois de mais de uma década dominando o entretenimento blockbuster, a engrenagem do MCU parece ter oscilado entre projetos que passaram sem deixar grande impacto e outros que, embora tenham funcionado melhor, ainda não foram suficientes para recuperar plenamente a sensação de evento cultural que antes acompanhava cada lançamento.
Capitão América 4, por exemplo, chegou cercado de expectativas, mas não conseguiu empolgar como se esperava, soando mais como um capítulo burocrático do que como um marco narrativo. Coração de Ferro, por sua vez, quase desapareceu no fluxo incessante de conteúdos, com pouca repercussão fora dos círculos mais dedicados. Thunderbolts* obteve uma recepção relativamente mais positiva, sustentada pelo carisma do elenco e pela proposta de trabalhar com figuras moralmente ambíguas, mas ainda assim sem a força necessária para redefinir o momento do estúdio. Demolidor: Renascido acabou dividindo opiniões, especialmente por carregar o peso da nostalgia da versão da Netflix, enquanto Quarteto Fantástico gerou reações mistas, oscilando entre promessas e incertezas. Nesse cenário, os trailers de Vingadores: Doutor Destino serviram quase como um lembrete estratégico: existe um “plano maior” em construção, mesmo que o caminho até lá pareça menos seguro do que antes.
É justamente por isso que 2026 começa de maneira mais interessante do que se imaginava. Magnum, nova série do Disney Plus, surge como uma tentativa clara de experimentar dentro do MCU, apostando em uma abordagem que foge do lugar-comum das grandes ameaças globais, dos efeitos apocalípticos e das batalhas intermináveis. Em vez disso, a produção se constrói como uma narrativa menor, mais humana e surpreendentemente íntima, uma história que, em muitos momentos, parece nem precisar de super-heróis para existir.

A trama acompanha Simon Williams, um ator tentando sobreviver em Hollywood, interpretado por Yahya Abdul-Mateen II. Simon não é apresentado como o típico protagonista heroico que descobre seus poderes e imediatamente assume uma missão grandiosa. Pelo contrário: ele é um homem fragilizado, ansioso, pressionado por um mercado competitivo e instável, lidando com crises emocionais que refletem um tipo de vulnerabilidade rara no padrão Marvel. Seus poderes surgem justamente quando ele perde o controle, não como uma bênção, mas como um problema. Algo que ameaça sua carreira, sua imagem e sua tentativa desesperada de manter alguma normalidade.
Essa inversão é um dos pontos mais interessantes da série. Magnum não romantiza o dom extraordinário como solução mágica. Para Simon, ele é um fardo, um risco constante, uma parte de si que precisa ser escondida. A série, portanto, se aproxima mais de um drama sobre identidade e ansiedade do que de uma aventura super-heróica tradicional.
É nesse contexto que entra Trevor Slattery, vivido novamente por Sir Ben Kingsley. O personagem, eternamente marcado pelo “falso Mandarim” de Homem de Ferro 3, retorna aqui em uma versão ainda mais melancólica e, ao mesmo tempo, hilária. Trevor tenta reconstruir sua vida e retomar sua carreira como ator após ter se tornado uma piada pública dentro do próprio universo Marvel. O encontro entre Simon e Trevor dá origem ao coração da série: uma dupla improvável, carismática e cheia de energia, que sustenta grande parte do charme da narrativa.

Os dois acabam envolvidos em um remake de Magnum, um herói fictício dos anos 1980, dirigido pelo excêntrico e premiado Vonn Kovack, interpretado por Zlatko Buric. Esse elemento abre espaço para que a série brinque com a própria indústria do entretenimento, adotando um tom metalinguístico que lembra produções como “O Estúdio”. Mas Magnum vai além: sua crítica não é apenas sobre Hollywood, mas também sobre o desgaste do gênero de super-heróis como produto cultural.
Existe uma influência perceptível de Shane Black, cineasta conhecido por diálogos rápidos, humor ácido e histórias centradas em duplas carismáticas, como Máquina Mortífera, Beijos e Tiros e Dois Caras Legais. Magnum herda essa cadência: conversas afiadas, situações absurdas e uma leveza que funciona justamente porque não tenta soar grandiosa.
Curiosamente, é quando a série se afasta do MCU que ela encontra sua melhor forma. Quanto menos se preocupa em ser “parte de algo maior”, mais Magnum respira como obra própria. A dinâmica entre Simon e Trevor é o motor central, e Ben Kingsley parece especialmente à vontade, entregando uma das atuações mais divertidas e humanas de toda sua passagem pelo universo Marvel.
Simon, por outro lado, vive uma jornada do herói muito mais íntima. Não há vilões cósmicos nem ameaças interdimensionais. O conflito é interno, emocional, familiar. O selo Marvel Spotlight oferece uma liberdade criativa importante, permitindo episódios mais focados em identidade cultural e no cotidiano de Los Angeles. Um dos capítulos mais marcantes, por exemplo, se passa quase inteiro dentro da comunidade haitiana ligada à família do protagonista, ampliando o senso de mundo e diversidade sem parecer forçado.
Ainda assim, Magnum não escapa completamente das armadilhas do universo compartilhado. Seu maior problema surge quando a série se lembra de que precisa se conectar ao MCU de forma mais direta. Referências aos Vingadores funcionam bem como pano de fundo, mas a entrada do Departamento de Controle de Danos interrompe o ritmo e força conexões que enfraquecem a proposta inicial. É nesses momentos que a série parece menos confiante, como se precisasse justificar sua existência em um grande tabuleiro, quando, na verdade, sua força está justamente em ser menor.

Gamerdito (Veredito): Magnum (Wonder Man) é bom?
No geral, Magnum é uma grata surpresa. Comandada por profissionais vindos de produções como Poker Face, Insecure e Community, a série entrega um texto afiado, um elenco carismático e uma abordagem mais humana do MCU. Talvez não seja tão ácida quanto poderia ser em sua crítica à indústria, mas compensa com sensibilidade e autenticidade.
No fim das contas, Magnum resgata aquilo que sempre foi uma das principais forças da Marvel: personagens que parecem reais, com dilemas cotidianos e emoções reconhecíveis. E faz isso sendo, curiosamente, uma série (quase) sem super-heróis, o que talvez diga mais sobre o futuro do MCU do que qualquer trailer de Vingadores.
Com todos esses pontos em mente, Magnum se estabelece como um passo interessante e necessário para o estúdio, encerrando a experiência com um veredito positivo.
Com todos os pontos mencionados nesta crítica, encerro esse texto com a nota de 4/5.
