Já se passaram quase 18 anos desde o lançamento de Wall-E, filme da Pixar dirigido por Andrew Stanton e com roteiro e história assinado por ele, Pete Docter e Jim Reardon. Com aproximadamente 1 hora e 38 minutos de duração, o longa é, sem exagero, um dos filmes mais à frente do seu tempo já produzidos pelo estúdio. E talvez o mais impressionante seja justamente isso ao assistir a Wall-E hoje dá a sensação de que ele fala diretamente sobre o mundo em que vivemos agora.
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Lançado em 2008, o filme parece prever muitos dos problemas que enfrentamos em 2026. O consumismo desenfreado, o excesso de lixo, a degradação do meio ambiente, a dependência da tecnologia e o distanciamento entre as pessoas são temas centrais do enredo. A Terra, no universo do filme, tornou-se inabitável não por um único grande desastre, mas pelo acúmulo de escolhas erradas ao longo do tempo. Produzimos demais, descartamos demais e não soubemos lidar com as consequências.

Um dos pontos mais simbólicos de Wall-E é a forma como a humanidade reage a essa destruição. Em vez de resolver o problema, as pessoas simplesmente abandonam o planeta e passam a viver em uma nave espacial, confortáveis, cercadas de tecnologia, mas completamente sedentárias. Elas não caminham, não interagem de verdade e parecem ter perdido qualquer propósito. Tudo é feito por máquinas. Tudo é mediado por telas.
Esse retrato não soa tão distante da realidade atual. Hoje, preferimos muitas vezes o conforto do isolamento, das telas e do consumo rápido a relações reais e ao cuidado com o próximo. A tecnologia, que deveria servir como ferramenta, passa a ocupar um lugar central demais em nossas vidas.
É importante deixar claro ao ser crítico à tecnologia não significa ser contra ela. Pelo contrário. A tecnologia trouxe e continua trazendo inúmeros benefícios. A inteligência artificial, por exemplo, já está presente em casas inteligentes, na medicina, em cirurgias, na programação, na música e em praticamente todas as áreas da sociedade. O medo de que profissões desapareçam não é novidade. Ao longo da história, isso sempre aconteceu. Funções deixam de existir, outras surgem, e o ser humano se adapta.
A questão que Wall-E levanta — e que hoje se torna ainda mais relevante — é se essa adaptação será suficiente. A IA avança de forma muito rápida e está cada vez mais integrada ao cotidiano. O que vai sobrar para as pessoas? O que restará para a humanidade quando boa parte das tarefas for automatizada? Ainda não sabemos a resposta.
O ser humano é excelente em se adaptar, isso é um fato. Mas o filme nos provoca a pensar se, em algum ponto, essa adaptação pode nos levar a um estado parecido com o dos humanos da nave: vivos, confortáveis, mas apáticos, sem propósito, presos ao sedentarismo e à dependência total da tecnologia. Talvez isso não aconteça agora, nem tão cedo, mas em 50 anos — ou até menos — não parece uma possibilidade tão absurda.
Nesse sentido, Wall-E também aponta um caminho. A esperança do filme não vem da tecnologia em si, mas da reconexão com a vida. É um pequeno robô, esquecido na Terra, que encontra uma planta e mostra que o planeta ainda pode renascer. A mensagem é simples, poderosa e profunda, ainda há tempo, mas é preciso agir.
O filme não ignora temas como aquecimento global, consumo excessivo e descarte irresponsável, mas vai além. Ele fala sobre humanidade, sobre empatia, sobre a importância de não esquecer que existe vida fora das telas. Trabalhamos em frente ao computador, usamos tecnologia todos os dias — e isso é necessário. O problema começa quando isso se torna a única coisa, quando esquecemos das pessoas, da família, da natureza e de nós mesmos.
Por tudo isso, Wall-E é um filme que todos deveriam assistir ou reassistir. Mesmo com tantos anos desde o seu lançamento, ele continua atual, emocionante e extremamente relevante. A relação entre Wall-E e Eve (Eva) traz uma carga genuína de afeto e humanidade, mesmo sendo dois robôs. Até detalhes curiosos, como a barata que sobrevive em meio ao lixo, exibem a ideia de resistência da vida, mesmo nas piores condições.
Por fim, o longa-metragem está disponível na plataforma de streaming Disney Plus. Apesar da menção ao serviço, esta publicação não é patrocinada, ainda que o site possa receber comissões por meio de algumas parcerias. O texto reflete uma reflexão pessoal sobre o medo compartilhado por muitas pessoas em relação aos rumos que o mundo vem tomando.
