Em 8 de fevereiro de 2026, o último episódio de No.1 Sentai Gozyuger marcou, ao menos por enquanto, o encerramento de uma das franquias de super-heróis mais longevas e influentes do mundo: Super Sentai.
A trajetória iniciou em 5 de abril de 1975, a partir de um conceito que originalmente não se concretizou: um esquadrão derivado do universo Kamen Rider. Desde então, 49 produções foram lançadas, consolidando os heróis coloridos como parte da cultura popular japonesa e inspirando adaptações globais, como Power Rangers.
Durante anos, rumores sobre o fim da franquia surgiam antes do anúncio de cada nova série. No entanto, no segundo semestre de 2025, a especulação se tornou realidade: No.1 Sentai Gozyuger, inicialmente planejada como uma celebração dos 50 anos da marca, foi confirmada como a última produção do ciclo.
A decisão não estava relacionada a adaptações internacionais, mas sim a uma reestruturação interna liderada pela Toei Company, responsável histórica pelo desenvolvimento da franquia.

A Toei possui um histórico irregular quando o assunto são produções comemorativas. Exemplos marcantes incluem Kamen Rider Decade, que dividiu opiniões, e Kaizoku Sentai Gokaiger, frequentemente apontada como referência positiva. Outras produções, como Kamen Rider Zi-O e Kikai Sentai Zenkaiger, geraram recepção mais controversa entre fãs e crítica.
Historicamente, as comemorações da franquia sempre estiveram ligadas ao número de séries, e não aos anos de existência, padrão adotado desde Hyakuju Sentai Gaoranger, seguindo com títulos como Gogo Sentai Boukenger e Doubutsu Sentai Zyuohger.
Gozyuger não seria originalmente a produção comemorativa da franquia. Pela lógica histórica, esse papel caberia à série seguinte. Contudo, a Toei adotou uma estratégia específica: passou a considerar Kaitou Sentai Lupinranger e Keisatsu Sentai Patranger como equipes separadas dentro do mesmo projeto, elevando simbolicamente No.1 Sentai Gozyuger ao posto de 50º esquadrão.
Com isso, a série foi exibida no ano em que Himitsu Sentai Gorenger completava 50 anos, criando o cenário ideal para encerrar a franquia com uma produção de caráter comemorativo.

Ao longo de 2025, a série apresentou conceitos interessantes, reviravoltas narrativas e tentativas de inovação dentro da fórmula do Super Sentai. Entretanto, muitos desses elementos não foram plenamente desenvolvidos.
Arcos narrativos eram iniciados e encerrados no mesmo episódio, antagonistas perdiam relevância rapidamente e homenagens às produções anteriores se tornaram pontuais. A própria trama central, incluindo conflitos e ameaças principais, passou longos períodos em segundo plano. O grande vilão construído para o final também teve uma resolução apressada, sendo derrotado logo após sua introdução.
Outro ponto recorrente foi a inconsistência no desenvolvimento do elenco. Alguns protagonistas tiveram pouco aprofundamento, enquanto outros receberam arcos mais elaborados e evoluções narrativas coerentes.
Curiosamente, diversos antagonistas se mostraram mais carismáticos e impactantes do que os próprios heróis, algo reconhecido inclusive em declarações internas da produção.

Uma entrevista concedida pela roteirista-chefe Akiko Inoue revelou um dos principais problemas estruturais da série: a ausência de um planejamento claro para o final. Segundo ela, a definição do encerramento começou apenas após o episódio 34, envolvendo o ator Ryoma Baba.
Essa abordagem contrasta com o método tradicional do gênero tokusatsu, em que roteiristas iniciam geralmente a produção já com o desfecho definido. A falta de uma rota narrativa sólida contribuiu para a sensação de ideias promissoras executadas de forma apressada ou desconexa.
O desenvolvimento da série também foi afetado por acontecimentos fora da tela. A saída da atriz Maya Imamori comprometeu a construção dos episódios finais. De acordo com declarações do produtor Daigo Matsuura, a equipe precisou adaptar rapidamente o roteiro e reduzir a presença da personagem na reta final, o que resultou em soluções narrativas pouco orgânicas e perceptíveis ao público.
Apesar do simbolismo, inclusive no nome, já que “Gozyu” significa 50, a série terminou com 49 episódios e sem uma homenagem final proporcional ao legado de cinco décadas da franquia. Mesmo com melhora de audiência e bons resultados em vendas de produtos licenciados, o desfecho deixou uma sensação agridoce. No.1 Sentai Gozyuger não falhou por falta de ideias ou potencial, mas por problemas de planejamento, escrita e execução.
Todos os elementos para uma produção memorável estavam presentes. Ainda assim, a última série do Super Sentai acabou marcada mais pelas oportunidades desperdiçadas do que pela celebração de sua própria história.

Gamerdito: No.1 Sentai Gozyuger é bom?
O encerramento de No.1 Sentai Gozyuger representa mais do que o término de uma série: marca o fim de um ciclo histórico iniciado há cinco décadas com Super Sentai. Trata-se de uma despedida carregada de simbolismo, mas que não conseguiu traduzir em tela toda a grandiosidade da trajetória construída ao longo dos anos.
A produção reuniu ideias promissoras, personagens com potencial e um contexto comemorativo forte. No entanto, falhas de planejamento, mudanças narrativas e dificuldades externas impediram que esses elementos se consolidassem em uma obra coesa e memorável. O resultado foi uma série que oscilou entre momentos interessantes e decisões apressadas, deixando a sensação de que poderia ter sido muito mais.
Ainda assim, o legado da franquia permanece intacto. Mesmo com um final considerado aquém do esperado, a importância cultural, comercial e histórica do Super Sentai segue evidente, influenciando gerações e consolidando seu espaço no entretenimento mundial.
Se No.1 Sentai Gozyuger não conseguiu ser a despedida definitiva que muitos imaginavam, ao menos funciona como um marco de transição. Um capítulo final imperfeito, mas significativo, que encerra uma era e abre caminho para o que seguirá.

