Crítica | Paris 8

Paris 8 surge como uma realidade melancólica sobre a produção de filmes

 

 

 

Dirigido por Jean-Paul Civeyrac, Paris 8 é uma experiência impactante sobre cinema. O filme traz o espectador para a realidade por trás do sonho de ser cineasta e, de modo muito provocador, questiona o glamour dos filmes franceses e da própria cidade de Paris. Mesmo sempre ponderando para os dois lados da moeda, Paris 8 deixa claro que este filme se trata de uma declaração de amor ao cinema clássico.

O filme acompanha a jornada de Étienne (Andranic Manet), um jovem francês que sai de uma cidade pequena para estudar cinema em Paris (na Universidade Paris 8). Étienne larga sua família e sua namorada em busca dessa sua nova identidade e, na cidade grande, se aproxima de dois colegas da faculdade: Jean-Nöel (Gonzague Van Bervesseles) e Mathias (Corentin Fila).

Jean-Nöel é o tipo de pessoa “mediana”: é esforçado, faz seu trabalho direito, é inteligente e um bom amigo – mas não se destaca entre os demais. Mathias, por outro lado, é um aluno brilhante e é admirado por uns e odiado por outros. Isso porque, quando se trata de cinema, ele é extremamente exigente; para Mathias, o cinema atual perdeu sua originalidade – não se fazem mais filmes como antigamente, filmes que representam sentimentos reais, não simplesmente literais. Mathias está sempre buscando a perfeição e, para ele, o cinema é sua vida.

Étienne coloca Mathias em um pedestal: está pronto para defende-lo em qualquer ocasião e necessita desesperadamente de sua aprovação. Só a opinião de Mathias vale algo e o protagonista não hesita em jogar fora meses de trabalho caso seu amigo critique qualquer detalhe de suas produções. Assim, de um modo que chega a ser até obsessivo, Étienne constrói uma personalidade que chega um pouco mais perto da realidade: no meio de pessoas realmente talentosas, o protagonista se vê inseguro com seu próprio trabalho. Étienne saiu de uma cidade pequena e, na cidade grande, tomou um banho de realidade – e descobriu que ela é frustrante.

Paris 8 se utiliza de uma história aparentemente banal para introduzir uma discussão muito mais profunda: o que é o cinema? Qual é o intuito de fazer filmes? Os filmes podem salvar o mundo? Em uma das primeiras cenas de Étienne em sua nova sala de aula, o espectador tem a impressão de estar de fato assistindo à aula. Ao longo do filme, Paris 8 expande esse conceito para a própria narrativa, revelando ser exatamente isto: uma aula sobre cinema.

 

 

O longa constrói diálogos extremamente elaborados e provocativos – o que é, sem sombra de dúvidas, o verdadeiro charme do filme. Desde o começo até o final, os diálogos entre os personagens provocam no espectador dilemas sobre o próprio mundo do cinema (entre outros assuntos, como relacionamentos e traição). Esses dilemas não são esclarecidos ao longo do filme, uma vez que o propósito de Paris 8 é expor, não responder.

Ao contrário dos diálogos, o enredo não impressiona. O longa traz detalhes desnecessários sobre a vida do protagonista. Isso torna Paris 8 maçante e faz com que o espectador se desconecte das discussões fenomenais que o filme nos proporciona. É compreensível que o longa explore a vida de um adolescente que, ao sair de uma cidade pequena, torna-se vulnerável aos acontecimentos a sua volta, encantando-se com o novo. Mas esses acontecimentos e reviravoltas possuem uma carga de presença muito forte, tirando um pouco da beleza e naturalidade dos diálogos importantes. Além disso, é um filme pouco focado no que quer passar: mesmo que seu intuito seja justamente plantar dúvidas, questionamentos e discussões na cabeça do espectador, Paris 8 falha em deixar claro tal intuito (como faz, por exemplo, Antes do Amanhecer, de Richard Linklater), uma vez que o filme dá muito peso aos acontecimentos, fazendo com que o espectador esteja sempre esperando uma conclusão.

Uma coisa é certa: Paris 8 faz um trabalho notável ao ilustrar o amor pela arte e pelo cinema clássico. O filme gira em torno da música, do livro e do cinema. Paris 8 intercala essas três esferas de um modo muito natural, trazendo uma riqueza de conteúdo que não é novidade, mas impressiona. Ainda, celebrando o cinema clássico, o longa é inteiro em preto e branco, as transições de cena são quase sempre feitas com fade out, o filme é dividido em capítulos e a trilha sonora é extremamente teatral, dando ao filme um ar mais dramático e clássico.

Assim, Paris 8 faz um bom trabalho em celebrar – e ao mesmo tempo questionar – o cinema clássico francês e o glamour de Paris. Acima de tudo, esse é um filme que se preocupa em definir o que é cinema sem de fato definir: com performances naturais e intensas, Paris 8 nos mostra a expectativa e a realidade crua de trabalhar com filmes, mas também usa uma paixão muito transparente para dizer que, de fato, o cinema pode não salvar o mundo, mas com certeza o deixa melhor.

Nota da Crítica

Crítica | Paris 8


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