Crítica | Akira (Remasterizado em 4K)

Mais de três décadas depois de sua estreia, Akira retorna aos cinemas brasileiros em uma remasterização em 4K que realça sua animação, sua atmosfera e a força de uma história que permanece surpreendentemente atual.

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Poucos filmes de animação conseguiram atravessar décadas mantendo tamanha capacidade de provocar fascínio e desconforto. Akira, dirigido e roteirizado por Katsuhiro Otomo a partir de seu próprio mangá, pertence a esse grupo. Lançado originalmente em 1988, o longa construiu uma reputação que ultrapassa os limites do anime e se tornou uma das obras fundamentais da ficção científica e do cyberpunk no cinema.

A nova versão remasterizada em 4K não tenta reinventar aquilo que já funcionava. Seu principal mérito está justamente em permitir que o público reencontre a grandiosidade de Neo-Tóquio com uma apresentação mais nítida, preservando o trabalho artesanal da animação original. O resultado é uma experiência que comprova algo importante: Akira não precisa ser atualizado para continuar impressionante.

Uma cidade construída sobre os escombros

A história se passa em 2019, em uma Neo-Tóquio reconstruída depois que uma misteriosa explosão destruiu a antiga capital japonesa décadas antes. É nesse ambiente de instabilidade política, violência urbana e desigualdade social que acompanhamos Kaneda e Tetsuo, dois jovens integrantes de uma gangue de motociclistas.

O equilíbrio entre os dois começa a ruir quando Tetsuo sofre um acidente envolvendo uma misteriosa criança com poderes psíquicos. Levado pelo governo para participar de experimentos secretos, o jovem passa a desenvolver habilidades extraordinárias que rapidamente fogem de seu controle.

Kaneda, por sua vez, tenta entender o que aconteceu com o amigo enquanto se aproxima de Kei, integrante de um grupo de resistência que investiga os segredos escondidos pelo governo.

A premissa pode parecer simples quando resumida dessa maneira, mas Akira nunca esteve interessado apenas em contar uma história sobre poderes telecinéticos. O filme utiliza sua ficção científica para construir um retrato de uma sociedade traumatizada, na qual jovens sem perspectivas procuram algum tipo de pertencimento enquanto instituições políticas e militares tentam controlar aquilo que não compreendem. Essa é uma das razões pelas quais Neo-Tóquio continua tão fascinante.

Embora seja apresentada como uma cidade futurista, sua aparência não está tão distante da realidade. Não existem carros voadores ocupando todos os céus ou uma população completamente transformada pela tecnologia. Em vez disso, temos uma metrópole reconhecível, marcada por neon, motocicletas, prédios gigantescos, protestos, corrupção, violência e uma juventude que parece não saber exatamente para onde caminhar. O futuro imaginado por Otomo, portanto, não parece tão distante quanto deveria.

Crítica | Akira (Remasterizado em 4K)
Imagem: Tokyo Movie Shinsha

Tetsuo e o medo de perder o controle

O coração emocional de Akira está na relação entre Tetsuo e Kaneda. Tetsuo é inseguro, ressentido e constantemente incomodado pela posição de liderança ocupada pelo amigo. Kaneda possui confiança, influência e respeito dentro da gangue, enquanto Tetsuo parece sempre estar tentando provar que também é capaz de ocupar esse espaço.

Quando os poderes surgem, essa relação se transforma. O que inicialmente poderia representar uma oportunidade de independência rapidamente se transforma em uma espiral de violência. Tetsuo finalmente possui algo que ninguém ao seu redor consegue controlar, mas também não possui maturidade emocional para lidar com aquilo.

É justamente nesse ponto que Akira encontra uma de suas ideias mais interessantes: o problema nunca é simplesmente possuir poder, mas compreender o que fazer com ele.

A transformação de Tetsuo também funciona como uma extensão de sua personalidade. A insegurança se converte em arrogância; o ressentimento se transforma em violência; e a necessidade de reconhecimento se torna uma obsessão destrutiva.

Ao mesmo tempo, Kaneda não é simplesmente o herói que precisa derrotar o vilão. Sua relação com Tetsuo permanece marcada por amizade, irritação e preocupação. Existe uma tentativa constante de recuperar o amigo mesmo quando ele já parece ter ultrapassado todos os limites. Essa dimensão torna o conflito final muito mais significativo.

A violência como retrato de uma sociedade sem perspectivas

A brutalidade de Akira também continua impressionante, mas ela raramente parece gratuita. A violência está presente nas ruas, nas escolas, nas gangues, nos experimentos governamentais e nas manifestações políticas. É praticamente uma linguagem cotidiana daquela sociedade.

Os próprios protagonistas são adolescentes inseridos nesse ambiente. Eles vivem entre brigas, drogas, motocicletas e confrontos, sem encontrar adultos capazes de oferecer orientação adequada. Quando os jovens erram, a resposta das autoridades frequentemente também é baseada na violência.

Nesse sentido, o filme constrói uma espécie de ciclo. Uma sociedade incapaz de oferecer esperança produz jovens violentos, enquanto instituições violentas tentam controlar esses mesmos jovens.

Tetsuo é a representação mais extrema desse processo. Seu poder psíquico simplesmente transforma em escala gigantesca uma violência que já existia dentro daquele mundo.

Crítica | Akira (Remasterizado em 4K)
Imagem: Tokyo Movie Shinsha

Uma animação que continua impressionante

Se a narrativa permanece relevante, o aspecto visual talvez seja ainda mais impressionante. A animação de Akira foi produzida com um nível de cuidado extraordinário para sua época. Os movimentos são fluidos, os personagens possuem expressões detalhadas e os cenários apresentam uma quantidade impressionante de informações.

Neo-Tóquio parece existir para além dos personagens. Há sempre alguma coisa acontecendo ao fundo: pessoas caminhando, veículos circulando, letreiros luminosos, manifestações, prédios, fumaça e diferentes fontes de iluminação. A cidade não funciona apenas como cenário, mas como parte ativa da narrativa.

A remasterização em 4K reforça essa característica. A maior vantagem da nova versão não está em transformar Akira em algo visualmente diferente, mas em permitir que detalhes antes menos perceptíveis ganhem maior definição. Texturas, iluminação, cores e elementos dos cenários aparecem com mais clareza, valorizando o trabalho artesanal realizado quadro a quadro.

É o tipo de remasterização que funciona porque respeita a obra original. Em vez de tentar modernizar sua estética, a versão em 4K permite enxergar melhor aquilo que já estava lá.

O som também é parte da experiência

A experiência cinematográfica de Akira não depende apenas da imagem. A trilha sonora de Geinoh Yamashirogumi, liderada por Shoji Yamashiro, continua sendo um dos elementos mais particulares do longa. Em vez de simplesmente acompanhar as cenas, a música ajuda a criar uma atmosfera quase ritualística, estranha e hipnótica.

O desenho de som também ganha força na sala de cinema. Motores, explosões, disparos e ruídos da cidade contribuem para criar a sensação de estar dentro daquela Neo-Tóquio caótica.

É uma obra que entende que imersão não significa apenas mostrar uma cidade gigantesca, mas fazer o espectador sentir que existe uma cidade viva ao redor dos personagens.

Crítica | Akira (Remasterizado em 4K)
Imagem: Tokyo Movie Shinsha

Um filme menor que o mangá, mas não necessariamente incompleto

Uma das discussões inevitáveis ao falar de Akira é a relação entre o filme e o mangá. Otomo precisou condensar uma história muito maior em aproximadamente duas horas. Naturalmente, diversos personagens, acontecimentos e conflitos foram reduzidos ou eliminados.

Isso faz com que algumas ideias pareçam surgir e desaparecer rapidamente. O mangá possui mais espaço para desenvolver a política de Neo-Tóquio, as relações entre os personagens e as consequências dos acontecimentos. O filme, por outro lado, prefere apostar na atmosfera, no impacto visual e em uma sucessão de acontecimentos cada vez mais intensos.

Por isso, talvez seja mais interessante enxergar as duas obras como complementares. O filme não precisa substituir o mangá para funcionar. Ele é uma interpretação cinematográfica da mesma ideia, construída para utilizar as ferramentas que a animação oferece. E, nesse aspecto, Otomo demonstra uma compreensão impressionante da linguagem cinematográfica.

O futuro chegou e Akira continua atual

Existe uma ironia inevitável quando revisitamos Akira atualmente. A história se passa em 2019. Esse futuro já ficou para trás. Ainda assim, muitas das preocupações apresentadas pelo filme continuam familiares: governos que escondem informações, desigualdade social, violência urbana, radicalização política, jovens sem perspectivas e uma sociedade fascinada pela possibilidade de controlar forças que não compreende completamente.

É justamente por isso que Akira não envelheceu como uma simples obra futurista. Seu futuro específico ficou no passado, mas os problemas que ele imaginava continuam presentes. A Neo-Tóquio de Otomo não parece distante porque nunca foi realmente sobre tecnologia. Era sobre pessoas vivendo em uma sociedade em crise.

Crítica | Akira (Remasterizado em 4K)
Imagem: Tokyo Movie Shinsha

Gamerdito (Veredito): Vale a pena assistir Akira em 4K?

Sim, especialmente para quem nunca teve a oportunidade de assistir ao filme no cinema. A remasterização em 4K não transforma Akira em uma obra diferente, e essa é justamente sua maior qualidade. O filme continua sendo o mesmo clássico de 1988, mas agora apresentado com uma qualidade de imagem que permite apreciar ainda mais o trabalho de animação, os cenários e a atmosfera de Neo-Tóquio.

Para quem já conhece o longa, a experiência também encontra valor na possibilidade de revisitá-lo em uma tela grande. Afinal, existem filmes que foram feitos para serem assistidos; Akira parece ter sido feito para ser vivenciado. Mesmo depois de quase quatro décadas, sua animação continua extraordinária, sua violência ainda incomoda e seus temas permanecem atuais. A nova versão em 4K, portanto, não precisa provar que Akira é uma obra-prima. Ela apenas nos dá a oportunidade de lembrar por que ele se tornou uma.

Akira (Remasterizado em 4K) estreia nos cinemas no dia 27 de agosto e os ingresso já estão a venda.

Marcus Vinicius
Marcus Viniciushttps://www.meugamer.com/
Entusiasta do universo dos animes, mangás e tokusatsu, também escrevo sobre cinema, séries e as principais tendências da cultura pop japonesa e ocidental. Meu propósito é compartilhar análises, curiosidades e novidades que aproximam fãs desse universo, unindo informação, entretenimento e paixão pela cultura geek. Do clássico ao contemporâneo, exploro o impacto de produções que marcaram gerações, discuto teorias, mergulho em personagens inesquecíveis e acompanho de perto os lançamentos que movimentam a comunidade otaku. Além do Japão, também abordo obras e fenômenos globais que moldam a cultura pop, trazendo conteúdos que despertam nostalgia, reflexão e novas descobertas para quem vive intensamente esse mundo.

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