Corrida dos bichos e o desperdício de potencial

Distopia brasileira apresenta boas ideias, mas não consegue desenvolvê-las

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Se você consome muito conteúdo da internet, seja no Instagram, TikTok ou Twitter, provavelmente já viu a polêmica versão de “Bichos Escrotos”, dos Titãs, na voz de Anitta, que viralizou negativamente nos últimos dias. Mas o que talvez você não saiba é que o lançamento da cantora foi feito como trilha sonora de “Corrida dos Bichos”, filme original da Prime Vídeo que foi lançado na plataforma no dia 7 de Agosto deste ano. E talvez assistir ao longa-metragem seja justamente o que falta para entender essa escolha.

Corrida dos Bichos apresenta uma premissa pouco comum no cinema brasileiro. A história se passa em um Rio de Janeiro distópico, depois que um evento ambiental catastrófico destruiu completamente a geografia da região. Entre as ruínas da cidade, surge o palco de uma competição mortal: a antiga prática do Jogo do Bicho evoluiu para a chamada “Corrida dos Bichos”, um espetáculo de violência comandado pelas elites.

Nesse jogo, os ricos são os “Jogadores” e controlam pessoas das classes mais baixas, os chamados “Bichos”. Cada corredor representa um animal e precisa arriscar a própria vida em busca de um prêmio milionário. Mas existe uma condição: para entrar na competição, é necessário oferecer uma pessoa amada como garantia. Apenas os vencedores conseguem recuperar seus entes queridos, tornando a disputa não apenas uma corrida pela sobrevivência, mas também uma representação do abismo social e da opressão que sustentam aquele mundo.

Mas será que essa ideia funcionou na prática?

Participantes da corrida dos bichos correm pelas ruas do Rio de Janeiro
Participantes da corrida dos bichos correm pelas ruas do Rio de Janeiro com o objetivo de proteger a vida de seus entes queridos.

O filme cria um universo e uma premissa que são genuinamente interessantes e poderiam ser inovadores e até revolucionários dentro do cenário do cinema nacional, que não possui tantas histórias de ficção científica. O problema é que Corrida dos Bichos parece mais interessado em apresentar esse mundo do que em desenvolvê-lo. O longa não se preocupa em explicar melhor as regras desse universo, explorar suas possibilidades ou dar profundidade aos personagens que fazem parte dele. O espectador é constantemente bombardeado com novos núcleos e possibilidades de histórias, mas complexidade nenhuma a essas relações.

Logo no início, é possível esperar que a história desenvolva alguma reflexão sobre uma elite que transforma a exploração das classes menos privilegiadas em entretenimento. Semelhantemente a obras distópicas como os filmes Jogos Vorazes (2012) e Battle Royale (2000). Entretanto, essa discussão acaba ficando em segundo plano.

Em vez de explorar as consequências desse sistema brutal ou aprofundar as próprias regras da corrida dos bichos, que são confusas e mal exploradas, o filme concentra boa parte das suas duas horas de duração na história de Mano (Cauã Reymond), um homem rebelde que fazia parte de grupos opositores à competição e que se vê obrigado a jogar todos os seus valores fora e arriscar a própria vida participando da corrida dos bichos como corredor para salvar sua irmã, Dalva (Thainá Duarte), que foi oferecida como seguro por seu namorado, Jonas (João Guilherme).

E, sinceramente, essa acaba sendo uma das partes mais desinteressantes do filme. A história parece não sair do lugar e, principalmente, não consegue construir uma relação convincente entre os personagens. Mano e Dalva deveriam carregar uma relação de irmãos capaz de dar peso emocional à trama, mas a falta de química entre os dois faz com que eles pareçam mais dois estranhos dividindo a mesma história do que irmãos tentando sobreviver a uma situação de risco

O Papel de Anitta

Além do polêmico lançamento da música “Bichos Escrotos”, a cantora interpreta Divina, uma espécie de “mestre de cerimônias” do filme. A personagem, porém, aparece apenas narrando os jogos em lives. Sua relação com as corridas não é explicada em nenhum momento, e a participação de Anitta no filme se torna limitada aos materiais promocionais e cenas rápidas.

A cantora Anitta é “Divina” em “Corrida dos bichos”
A cantora Anitta é “Divina” em “Corrida dos bichos” e canta a música-tema “Bichos escrotos”.

Não fica claro qual é a relação de Divina com aquele mundo, e ela sequer aparece fora das cenas de narração.

Após tentar dar uma chance à música, pensei que a mudança dos tons raivosos utilizados pelos Titãs na versão original para batidas e tons mais alegres poderia combinar com o contexto do filme. Mas não é o que acontece aqui. A nova versão parece algo planejado de última hora, que não combina nem com o tom nem com a premissa do longa.

A impressão é de que, como o filme se passa no Rio de Janeiro, a ideia tenha sido trazer a música para um ritmo mais carioca. O problema é que a letra dos Titãs causa muito estranhamento quando cantada de forma alegre, acompanhada por batidas dançantes,

Gamerdito (Veredito) da Corrida dos bichos

Por fim, Corrida dos Bichos é um filme que parece ter mais ideias do que tempo ou interesse para desenvolvê-las. O universo das corridas, a crítica à exploração dos mais vulneráveis, a própria Divina e até a escolha de Anitta poderiam render discussões muito mais interessantes, mas quase tudo é apresentado superficialmente.

O resultado é uma obra que frequentemente faz o espectador enxergar o filme que poderia ter sido, em vez de se envolver plenamente com o filme que está assistindo. Ao meu ver, este foi um filme que contou com a participação de diretores como Ernesto Solis, Rodrigo Pesavento e Fernando Meirelles, que também atuou como produtor ao lado de Andrea Barata Ribeiro e Vinicio Espinosa. Ainda assim, a produção não conseguiu alcançar o mesmo resultado de outros trabalhos que ajudaram a consagrar Meirelles como um dos grandes cineastas do cinema brasileiro.

Os assinantes do streaming do Prime Video podem assistir ao filme na íntegra diretamente pelo catálogo da plataforma.

Giovanna Melo
Giovanna Melohttps://www.meugamer.com/
Estudante de Jornalismo de 20 anos, apaixonada por cultura pop, filmes, séries e tudo que envolve o universo do entretenimento. Entre uma pauta e outra, gosta de descobrir novas histórias, personagens e produções que merecem ser conhecidas e comentadas.

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