Durante a 50ª Mostra de São Paulo, prestigiamos o longa-metragem Behemoth: Uma Vida Composta em Peças. Proporcionando-me a oportunidade de desenvolver minha crítica sobre esta produção. O filme de Tony Gilroy acompanha Alex Serian (Pedro Pascal), um violoncelista prodígio desde os seis anos que retorna a Los Angeles após passar 20 anos viajando como músico contratado. De volta à cidade natal, reencontra a família e volta a trabalhar na gravação de trilhas sonoras para Hollywood.
O roteiro alterna entre presente e passado, como quem percorre diferentes movimentos de uma mesma peça.
Além de Pedro Pascal, no elenco principal temos também Olivia Wilde (O Convite e Tron: O Legado), que vive Carol Spedding, a ex-namorada intensa e tóxica que o persegue. A atriz francesa Eva Victor (Billions, Sorry, Baby) dá vida a Nadia, a violinista com quem Alex teve um relacionamento marcante no passado. Will Arnett (BoJack Horseman, Arrested Development) interpreta Andy Serian, o irmão de Alex, enquanto Hank Azaria (Os Simpsons “série”, The Electric State) e JoBeth Williams (Poltergeist: O Fenômeno, Kramer vs. Kramer) completam o núcleo familiar.
A música como parte da narrativa de Tony Gilroy
A simpatia do protagonista é um trunfo; Pedro entrega uma atuação sólida e carismática, e isso te segura até o último momento. Alex é um personagem que mostra em todos os momentos o cansaço no olhar de alguém que foi embora de várias cidades, além de deixar claro um lado mulherengo dele. O filme consegue mostrar isso sem transformar o protagonista em um monstro por completo. Há humor em meio ao drama — momentos leves e no tempo certo que provocam risadas genuínas. Aliás, ver o próprio Pascal tocando o violoncelo dá um peso de verdade às cenas.

Destaque especial para Olivia com sua personagem “louca e tóxica”. Ela rouba várias cenas com uma performance vibrante, intensa e divertida. A dinâmica entre os dois funciona bem e traz leveza mesmo nos momentos mais complicados. Por mais que Eva Victor tenha pouco tempo de tela, a atriz conseguiu criar uma química perfeita entre sua personagem e a de Pedro. É interessante ver o breve romance dos dois e o desenrolar de uma culpa que corrói Alex.
O uso de flashbacks sincronizados com a música também é sagaz. O filme brinca com o ritmo da trilha para contar a história de um prodígio que carrega o peso de ter começado cedo demais. É incrível como cada acorde soa meticulosamente escolhido. Não é exagero: Gilroy convocou nove compositores, como James Newton Howard e Alan Silvestri, e fica claro que as harmonias não são apenas um adorno para gerar um clima, mas sim constituem a estrutura do filme.
O significado de Behemoth e os monstros da vida
Behemoth é um nome diferente. A palavra é de origem bíblica e é descrita como uma criatura enorme, poderosa e quase indomável — uma espécie de monstro terrestre de força colossal, muitas vezes associado a um hipopótamo gigante ou a um animal primordial. Com o tempo, a palavra passou a significar, em inglês, qualquer coisa enorme, esmagadora, avassaladora ou de proporções monstruosas. Para Gilroy, a ideia de usar o nome veio quando ele percebeu que o filme ia se justificando ao longo do caminho: “Existem muitos ‘monstros’ diferentes por aí, seja a sua família, o lugar onde você está na vida ou um monte de outras coisas“

Apesar de Behemoth! ser um filme agradável, ele não entrega uma emoção realmente profunda. Conseguimos entender a lógica por trás do violoncelista, que vive fugindo de si mesmo e não assume as responsabilidades. É um personagem meio contido, então o espectador fica de fora esperando um arco de redenção mais forte. Mas ele é um filme de Oscar?
Bem, até o momento, não existe nenhuma indicação oficial, mas já há um burburinho em torno do filme. Pascal costuma ser cotado para Melhor Ator quando interpreta personagens dramáticos. Já uma indicação para Melhor Trilha Sonora Original, pela ousadia de reunir nove compositores de renome, parece bastante provável. Também arriscaria apostas nas categorias de Melhor Filme, Direção e Roteiro Original, para Gilroy.
Caso isso ocorra, seria a primeira indicação de Pedro Pascal ao Oscar. O convite para a 50ª Mostra de São Paulo e a estreia como Centerpiece no Festival de Nova York demonstram que a produção chega com um considerável capital de prestígio. Contudo, o percurso até o Oscar ainda depende da recepção do grande público e da campanha que a Searchlight realizará nos próximos meses.

Gamerdito (Veredito) do filme Behemoth: Uma Vida Composta em Peças
É um filme que agrada, especialmente pela maneira como retrata a relação de um músico com sua própria história. Não espere um drama devastador ou uma catarse profunda, mas uma narrativa mais intimista sobre um prodígio que passou a vida inteira tocando, viajando e fugindo de questões que ficaram para trás. O reencontro com suas origens traz novas camadas à trajetória de Alex, mesmo que nem todos os momentos alcancem o mesmo impacto.
Por fim, Behemoth: Uma Vida Composta em Peças estreia nos cinemas brasileiros em 3 de dezembro de 2026.
