Crítica | Street Fighter

O novo filme de Street Fighter abraça o exagero dos videogames, entrega boas cenas de luta e aposta na nostalgia dos anos 1990. Apesar do elenco carismático e do cuidado com o material original, o roteiro não consegue acompanhar a energia de seus combates.

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Adaptar Street Fighter para o cinema nunca foi uma tarefa simples. Com personagens conhecidos mundialmente, golpes especiais que fazem parte da história dos videogames e uma mitologia construída ao longo de décadas, a franquia da Capcom exige um equilíbrio delicado entre fidelidade e narrativa cinematográfica. O novo longa, dirigido por Kitao Sakurai, encontra uma resposta para parte desse desafio: em vez de tentar transformar os lutadores em figuras excessivamente realistas, abraça o exagero que sempre fez parte da identidade da série.

Ambientado em 1993, o filme recupera a atmosfera dos fliperamas, a estética colorida e o espírito descontraído de uma época em que Street Fighter II ajudava a definir a experiência dos jogos de luta. A proposta é clara: transportar para a tela grande a sensação de reencontrar personagens queridos, reconhecer movimentos clássicos e acompanhar confrontos que parecem ter saído diretamente dos videogames.

Nesse aspecto, a adaptação funciona. O problema é que, embora consiga transformar a nostalgia em entretenimento, nem sempre encontra a mesma precisão na construção de sua história. Street Fighter diverte, respeita suas origens e oferece momentos visualmente empolgantes, mas deixa a impressão de que poderia ter ido além se tivesse dedicado mais atenção ao roteiro.

Crítica | Street Fighter
Imagem: Paramount Pictures

Street Fighter transforma a nostalgia em espetáculo

A história acompanha Ryu (Andrew Koji) e Ken Masters (Noah Centineo), antigos parceiros que seguiram caminhos diferentes após os acontecimentos envolvendo seu mestre, Gouken. Enquanto Ryu se afasta da sociedade, Ken leva uma vida marcada pela fama e pelos excessos, tentando lidar com as consequências do distanciamento entre os dois.

O reencontro acontece quando Chun-Li (Callina Liang) os recruta para participar de um novo World Warrior Tournament. O que começa como uma oportunidade de voltar aos combates logo revela uma conspiração perigosa, obrigando os lutadores a confrontarem adversários poderosos e conflitos que ficaram no passado.

A trama serve como ponto de partida para reunir personagens e elementos conhecidos dos jogos, mas é na apresentação desse universo que o longa demonstra sua maior compreensão da franquia. A direção de arte aposta em cores vibrantes, cenários cheios de personalidade e referências visuais que remetem às arenas clássicas.

Os golpes especiais também recebem o tratamento esperado. Ver movimentos icônicos adaptados para o cinema, incluindo o Hadouken, é parte do prazer de acompanhar a produção. Em vez de esconder a natureza fantasiosa de suas habilidades, o filme utiliza o exagero como ferramenta de espetáculo.

Essa escolha faz diferença porque Street Fighter entende que não precisa justificar cada elemento de seu universo com explicações excessivas. O público aceita que seus personagens realizem movimentos extraordinários; o que importa é que a ação seja compreensível, empolgante e fiel ao espírito dos jogos.

Andrew Koji e Noah Centineo sustentam a história

O relacionamento entre Ryu e Ken é o principal eixo emocional da produção. Apesar das diferenças de personalidade, Andrew Koji e Noah Centineo demonstram boa sintonia, tornando convincente a relação entre dois amigos que precisam enfrentar tanto os adversários quanto as próprias mágoas.

Koji utiliza sua experiência com artes marciais para construir um Ryu disciplinado, contido e constantemente preocupado com a própria agressividade. Sua interpretação encontra força nos gestos e nos momentos de silêncio, especialmente quando o personagem precisa demonstrar o conflito entre o autocontrole e a violência que carrega.

Centineo, por sua vez, transforma Ken em uma figura expansiva, convencida e carismática. Por trás da postura de playboy, porém, existe alguém que sente a ausência do antigo parceiro e ainda não conseguiu superar completamente o rompimento entre os dois. O ator encontra espaço para trabalhar essa contradição sem retirar do personagem o humor e a energia que o tornam reconhecível.

A dinâmica entre os protagonistas é um dos acertos do filme. Mesmo quando o roteiro se apoia em situações previsíveis, a interação dos dois ajuda a manter o interesse e oferece uma dimensão humana a uma história que poderia se limitar a uma sucessão de confrontos.

Crítica | Street Fighter
Imagem: Paramount Pictures

Chun-Li ganha força com Callina Liang

Callina Liang também merece destaque como Chun-Li. A personagem possui presença, habilidade e determinação, e a atriz consegue transmitir a intensidade necessária para uma das lutadoras mais emblemáticas dos videogames.

Suas sequências de combate estão entre os momentos mais interessantes da produção, combinando técnica e atitude. O treinamento físico da atriz também contribui para tornar os movimentos mais convincentes, enquanto sua interpretação oferece personalidade à jornada de vingança da personagem.

Ainda assim, a quantidade de lutadores reunidos no filme acaba prejudicando o espaço dedicado a alguns deles. A adaptação quer apresentar um universo amplo, mas nem todos recebem tempo suficiente para desenvolver suas motivações ou demonstrar plenamente suas habilidades.

Esse desequilíbrio fica evidente em participações como as de Honda e Zangief, que acabam reduzidas a aparições breves. Guile, interpretado por Cody Rhodes, também poderia ter recebido mais oportunidades para explorar o carisma do ator e a importância do personagem.

O elenco funciona melhor quando a narrativa permite que seus integrantes interajam e construam relações do que quando precisa distribuir minutos de tela entre tantos nomes conhecidos.

O humor exagerado é parte da identidade do filme

Um dos aspectos que mais podem dividir o público é o humor. Street Fighter não tem vergonha de ser brega, cartunesco ou exagerado. Pelo contrário: essas características fazem parte de sua proposta e ajudam a recuperar o espírito dos jogos que inspiram a adaptação.

Em uma época na qual muitas produções baseadas em videogames tentam adotar uma estética sombria e realista, a decisão de investir em cores, piadas e situações absurdas representa uma escolha coerente. O filme não precisa transformar cada personagem em uma figura trágica para justificar sua presença na tela.

Isso não significa que todas as piadas funcionem. O humor é irregular, e algumas caracterizações se afastam bastante das referências originais. Ainda assim, a produção geralmente trata seus personagens com afeto, mesmo quando brinca com suas características mais conhecidas.

Dan Hibiki, vivido por Andrew Schulz, é um exemplo do potencial cômico dessa abordagem. Sua participação aproveita a natureza exagerada do personagem e acrescenta leveza à narrativa.

Jason Momoa também abraça a ferocidade e o absurdo de Blanka, contribuindo para os momentos mais descontraídos. O resultado pode não agradar a quem espera uma adaptação séria e realista, mas faz sentido dentro da proposta escolhida pelo diretor.

Crítica | Street Fighter
Imagem: Paramount Pictures

As sequências animadas são um dos grandes destaques

Entre as decisões criativas mais interessantes está o uso de animações desenhadas à mão nos flashbacks. Além de diferenciar visualmente essas passagens, o recurso funciona como uma homenagem às adaptações animadas da franquia, especialmente ao clássico Street Fighter II: The Animated Movie, lançado em 1994.

As sequências se destacam pela fluidez dos movimentos, pelo cuidado com os enquadramentos e pela maneira como aproximam o longa da linguagem visual dos animes. Em determinados momentos, a animação consegue transmitir a intensidade dos combates de maneira ainda mais eficiente do que as cenas em live-action.

A escolha também demonstra que a produção compreende a importância da animação para a identidade de Street Fighter. A franquia não se resume aos jogos: suas versões animadas ajudaram a consolidar a imagem de seus lutadores e a ampliar o alcance de suas histórias.

Esses trechos estão entre os pontos mais fortes do filme e deixam vontade de ver a equipe explorar ainda mais essa linguagem em uma possível continuação.

Trilha sonora recupera o espírito dos anos 1990

A música é outro elemento que contribui para a identidade da adaptação. O longa combina releituras de temas associados aos jogos com canções licenciadas que reforçam a ambientação de 1993.

As melodias clássicas ajudam a estabelecer uma ligação imediata com a memória afetiva dos fãs, enquanto a seleção musical acompanha o ritmo acelerado das lutas e das situações cômicas.

Mais do que funcionar como pano de fundo, a trilha participa da construção da atmosfera. Ela reforça a sensação de que o espectador está diante de uma celebração da cultura dos videogames e da estética dos anos 1990.

Essa combinação de referências visuais e sonoras demonstra o cuidado da produção com o material original. Mesmo quando o roteiro perde o rumo, a apresentação audiovisual continua sustentando boa parte do entretenimento.

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Imagem: Paramount Pictures

O roteiro é o verdadeiro ponto fraco de Street Fighter

Se a adaptação acerta na estética, no elenco e nas cenas de ação, sua narrativa não alcança o mesmo nível. O roteiro trabalha com conflitos conhecidos, desenvolve algumas relações de maneira superficial e depende de situações previsíveis para conduzir os personagens até o torneio.

O maior problema está na dificuldade de equilibrar a quantidade de lutadores com o desenvolvimento da história. Há muitos nomes para apresentar, rivalidades para estabelecer e referências para incluir, mas nem todos esses elementos recebem a atenção necessária.

M. Bison, interpretado por David Dastmalchian, ilustra essa limitação. Embora seja uma figura central na mitologia de Street Fighter, o antagonista não ganha profundidade suficiente para representar uma ameaça verdadeiramente marcante. Sua ambição está presente, mas falta um desenvolvimento que dê mais peso ao confronto final.

A narrativa também poderia aproveitar melhor os conflitos envolvendo Ryu e Ken. A relação entre os dois tem potencial dramático, mas algumas situações são resolvidas de maneira apressada, impedindo que determinadas decisões tenham o impacto esperado.

É importante lembrar que uma história não precisa abandonar o humor para desenvolver seus personagens. O próprio filme demonstra isso quando permite que seus protagonistas revelem suas inseguranças por trás das personalidades exageradas. O problema é a falta de consistência: algumas ideias recebem atenção, enquanto outras parecem existir apenas para levar a trama à próxima luta.

O final deixa a sensação de que falta uma rodada

Outro ponto que pode incomodar é a maneira como o longa encerra sua história. A produção deixa pontas soltas e cria a impressão de que parte importante dos conflitos foi reservada para uma eventual sequência.

Preparar o terreno para novos filmes não é necessariamente um problema. O cinema de franquias faz isso com frequência. A dificuldade aparece quando a promessa de continuidade prejudica a conclusão da aventura apresentada naquele momento.

Em Street Fighter, o desfecho não oferece a mesma sensação de encerramento que os melhores momentos da produção conseguem construir. Depois de acompanhar o reencontro dos protagonistas e os desafios do torneio, o espectador pode sentir que assistiu apenas ao primeiro capítulo de uma história maior.

Uma continuação teria a oportunidade de aprofundar personagens pouco explorados, desenvolver melhor o antagonista e dar mais consistência aos conflitos. Entretanto, o filme atual precisaria funcionar de maneira mais satisfatória por conta própria, independentemente do que venha depois.

Crítica | Street Fighter
Imagem: Paramount Pictures

Gamerdito (Veredito): Vale a pena assistir a Street Fighter?

Para quem cresceu jogando Street Fighter, o novo filme oferece motivos de sobra para uma sessão no cinema. As referências aos jogos, as coreografias, a trilha sonora e a atmosfera dos anos 1990 compõem uma homenagem que entende o valor afetivo da franquia.

A produção também encontra um elenco capaz de sustentar boa parte da experiência, especialmente na dinâmica entre Ryu e Ken e nas sequências protagonizadas por Chun-Li. As animações desenhadas à mão acrescentam personalidade ao conjunto e reforçam o cuidado com a história audiovisual da série.

Por outro lado, quem procura um drama de ação mais consistente pode se frustrar com a superficialidade de alguns conflitos, o pouco desenvolvimento de determinados personagens e um vilão que não alcança todo o seu potencial. O humor exagerado também é parte essencial da proposta e pode não funcionar para todos os espectadores.

O filme acerta ao não tratar Street Fighter como uma franquia que precisa esconder suas próprias peculiaridades para funcionar no cinema. Seu maior mérito é compreender que os exageros, os golpes impossíveis e as personalidades marcantes fazem parte da experiência. O que falta é uma narrativa tão bem construída quanto o espetáculo visual que a acompanha.

Street Fighter é uma adaptação divertida, colorida e cheia de respeito por suas origens. Kitao Sakurai encontra um caminho coerente ao abraçar o humor, a estética dos anos 1990 e a natureza exagerada dos videogames, enquanto o elenco e as coreografias mantêm a energia da produção.

As animações desenhadas à mão e a trilha sonora estão entre os principais destaques, e a relação entre Ryu e Ken oferece o necessário componente emocional para além das lutas. Entretanto, o roteiro não consegue aproveitar todo o potencial desse universo. A quantidade de personagens prejudica o desenvolvimento de alguns deles, M. Bison carece de força como antagonista e o final deixa uma sensação de história incompleta.

No fim, o filme não precisa acertar um Perfect para cumprir sua função. Ele entrega uma celebração dos jogos de luta e uma adaptação que entende melhor suas raízes do que suas tentativas cinematográficas anteriores conseguiram demonstrar.

Como homenagem aos videogames, Street Fighter vence por pontos. Como narrativa cinematográfica, ainda deixa algumas rodadas pelo caminho.

Street Fighter estreia nos cinemas no dia 15 de outubro e os ingressos já estão disponíveis para compra.

Marcus Vinicius
Marcus Viniciushttps://www.meugamer.com/
Entusiasta do universo dos animes, mangás e tokusatsu, também escrevo sobre cinema, séries e as principais tendências da cultura pop japonesa e ocidental. Meu propósito é compartilhar análises, curiosidades e novidades que aproximam fãs desse universo, unindo informação, entretenimento e paixão pela cultura geek. Do clássico ao contemporâneo, exploro o impacto de produções que marcaram gerações, discuto teorias, mergulho em personagens inesquecíveis e acompanho de perto os lançamentos que movimentam a comunidade otaku. Além do Japão, também abordo obras e fenômenos globais que moldam a cultura pop, trazendo conteúdos que despertam nostalgia, reflexão e novas descobertas para quem vive intensamente esse mundo.

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