Crítica | Supergirl (2026)

Filme aposta em uma abordagem mais madura para Kara Zor-El e entrega uma das protagonistas mais interessantes do novo Universo DC.

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Desde que foi anunciada, Supergirl carregava uma responsabilidade incomum. Não bastava apenas expandir o novo Universo DC idealizado por James Gunn. O filme precisava justificar por que Kara Zor-El merecia protagonizar sua própria história em um cenário inevitavelmente dominado pela figura de Superman. Afinal, durante décadas, a personagem foi frequentemente tratada como uma extensão do legado do Homem de Aço, uma heroína cuja identidade quase sempre existia em função de outra pessoa.

A grande virtude do novo longa dirigido por Craig Gillespie é compreender exatamente esse problema e transformá-lo no centro de sua narrativa. Inspirado na celebrada HQ Supergirl: Mulher do Amanhã, de Tom King e Bilquis Evely, o filme abandona qualquer tentativa de reproduzir a jornada clássica dos heróis kryptonianos. Em vez disso, apresenta uma protagonista profundamente marcada pela perda, pela solidão e por um sentimento constante de deslocamento. Kara não é um símbolo de esperança como seu primo. Ela é alguém tentando encontrar um lugar em um universo que parece nunca ter sido feito para ela.

A destruição de Krypton deixa de ser apenas um elemento de origem para se tornar uma ferida aberta que acompanha a personagem em cada decisão. Essa diferença muda completamente a dinâmica da história. Enquanto Superman costuma representar aquilo que existe de melhor na humanidade, Supergirl é construída a partir das suas próprias rachaduras.

É justamente nesse ponto que o roteiro encontra sua maior força. A jornada ao lado da jovem Ruthye não funciona apenas como uma aventura de vingança espalhada por diferentes mundos. Trata-se de uma história sobre duas personagens consumidas pela dor e pela necessidade de seguir em frente. A relação entre ambas se desenvolve de maneira orgânica, permitindo que o filme discuta temas como luto, pertencimento, identidade e amadurecimento sem perder o senso de espetáculo característico das grandes produções de super-heróis.

Milly Alcock surge como a alma da produção. A atriz entrega uma interpretação impressionantemente segura para alguém que assume uma personagem tão importante dentro da nova fase da DC. Sua Kara é impulsiva, teimosa, emocionalmente instável e frequentemente contraditória. Alcock não tenta transformá-la em uma heroína perfeita. Pelo contrário. Ela abraça suas imperfeições e constrói uma personagem que parece genuinamente humana, mesmo possuindo poderes capazes de mover planetas.

O resultado é uma protagonista fascinante justamente porque está constantemente em conflito consigo mesma. Visualmente, o filme também demonstra personalidade. Craig Gillespie se afasta da grandiosidade limpa e luminosa apresentada em Superman para construir um universo mais áspero, melancólico e desgastado. Há influências claras de westerns clássicos, especialmente Bravura Indômita, misturadas a elementos de ficção científica que remetem tanto ao espírito aventureiro de Guardiões da Galáxia quanto à brutalidade caótica de Mad Max.

Crítica | Supergirl (2026)
Imagem: Warner Bros./DC Studios

O mais interessante é que essas referências nunca parecem uma simples colagem de inspirações. Elas servem para construir uma identidade visual própria, reforçando a sensação de que estamos acompanhando uma personagem que vive à margem das grandes estruturas heroicas desse universo.

E então existe Jason Momoa. Poucos atores parecem tão naturalmente conectados a um personagem quanto Momoa está com Lobo. Sua participação é relativamente pequena dentro da narrativa principal, mas basta uma cena para entender que ele nasceu para interpretar o Maioral. Carismático, exagerado, imprevisível e absurdamente divertido, o personagem injeta uma energia completamente diferente sempre que surge em tela.

Ainda assim, nem tudo funciona com a mesma eficiência. Alguns momentos do primeiro ato apresentam problemas de ritmo, especialmente durante a construção inicial da jornada. Há também sequências de ação que, embora visualmente competentes, não alcançam o impacto emocional que o restante do filme consegue estabelecer. Em certos momentos, a sensação é de que a produção está mais interessada em explorar o estado emocional de Kara do que em criar cenas memoráveis de combate.

Paradoxalmente, esse também é um dos motivos pelos quais o filme funciona tão bem. Supergirl nunca parece preocupada em competir com Superman ou em provar que sua protagonista é mais poderosa do que qualquer outro herói. Sua preocupação está em algo muito mais difícil: construir uma personagem que exista por conta própria.

E consegue. Ao final, a sensação é de que a DC Studios encontrou algo raro. Não apenas uma nova heroína para liderar futuras histórias, mas uma personagem capaz de sustentar narrativas profundamente humanas dentro de um universo repleto de deuses, alienígenas e seres superpoderosos.

Mais do que um capítulo importante para o DCU, Supergirl é uma reafirmação de que as melhores histórias de super-heróis ainda são aquelas que entendem que grandes poderes importam menos do que grandes personagens.

Crítica | Supergirl (2026)
Imagem: Warner Bros./DC Studios

Gamerdito: Vale a pena assistir Supergirl nos cinemas?

Nem tudo em Supergirl funciona com a mesma eficiência de sua protagonista. Um dos principais problemas está justamente em sua duração. Embora o filme conte uma história relativamente simples, a sensação é de que parte da jornada foi acelerada para acomodar todos os acontecimentos dentro do tempo de exibição. Em diversos momentos, personagens, conflitos e até mesmo algumas decisões importantes acontecem rápido demais, impedindo que determinadas emoções tenham o impacto que poderiam alcançar com um desenvolvimento mais cuidadoso.

A participação de Lobo também gera sentimentos contraditórios. Jason Momoa entrega exatamente o que os fãs esperavam do personagem: carisma, irreverência e uma presença de cena magnética. O problema é que, narrativamente, sua inclusão parece pouco essencial para a trama principal. Em vários momentos, sua presença soa mais como uma preparação para futuras produções do DCU do que como uma peça indispensável da história de Kara. É divertido vê-lo em ação, mas sua contribuição para o desenvolvimento central do filme acaba sendo menor do que o marketing sugeria.

Também é impossível ignorar a forte influência de James Gunn sobre a produção. Embora Craig Gillespie assine a direção, existem momentos em que Supergirl parece tentar reproduzir a mesma fórmula que transformou Guardiões da Galáxia em um fenômeno. O humor constante, a dinâmica entre personagens excêntricos, o visual colorido contrastando com temas melancólicos e até mesmo algumas escolhas de ritmo fazem o filme parecer, em certos trechos, mais próximo de uma aventura cósmica da Marvel do que de uma obra com identidade totalmente própria dentro da DC.

Ainda assim, mesmo quando flerta excessivamente com essas referências, Supergirl encontra espaço para construir algo relevante. O longa entende que Kara Zor-El não precisa ser uma cópia do Superman para funcionar. Pelo contrário: seus melhores momentos surgem justamente quando abraça suas fragilidades, seus traumas e suas imperfeições. Milly Alcock entrega uma protagonista carismática e emocionalmente complexa, enquanto a adaptação preserva boa parte da sensibilidade que tornou Supergirl: Mulher do Amanhã uma das histórias mais elogiadas da personagem nos quadrinhos.

No fim das contas, Supergirl está longe de ser um filme perfeito. Há problemas de ritmo, escolhas narrativas questionáveis e uma influência excessiva da assinatura criativa de James Gunn. Mas, mesmo com essas falhas, o resultado permanece sólido, emocionante e, acima de tudo, promissor. Se Superman serviu como uma excelente porta de entrada para o novo DCU, Supergirl reforça a sensação de que a DC Studios finalmente encontrou uma direção mais consistente para seus personagens. Ainda há ajustes a serem feitos, mas pela primeira vez em muito tempo, parece que o universo compartilhado da DC sabe exatamente para onde quer ir.

Crítica | Supergirl (2026)
Imagem: Warner Bros./DC Studios

O filme de Supergirl estreia nos cinemas nacionais no dia 25 de junho e os ingressos já estão a venda. Fique ciente que ainda este ano o título chegará oficialmente ao catálogo da HBO Max.

Marcus Vinicius
Marcus Viniciushttps://www.meugamer.com/
Entusiasta do universo dos animes, mangás e tokusatsu, também escrevo sobre cinema, séries e as principais tendências da cultura pop japonesa e ocidental. Meu propósito é compartilhar análises, curiosidades e novidades que aproximam fãs desse universo, unindo informação, entretenimento e paixão pela cultura geek. Do clássico ao contemporâneo, exploro o impacto de produções que marcaram gerações, discuto teorias, mergulho em personagens inesquecíveis e acompanho de perto os lançamentos que movimentam a comunidade otaku. Além do Japão, também abordo obras e fenômenos globais que moldam a cultura pop, trazendo conteúdos que despertam nostalgia, reflexão e novas descobertas para quem vive intensamente esse mundo.

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