Aether & Iron: um jogo narrativo despercebido que merece atenção

Jogo indie narrativo em mundo decopunk aposta em escolhas, turnos e trama sensível

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Quando testei a demonstração gratuita de Aether & Iron, no meu primeiro contato eu estava com sono — é verdade. Joguei por volta das 4h da manhã, e muitos diálogos acabaram passando batido, quase sem retenção, sem que eu realmente absorvesse o peso das conversas ou das escolhas apresentadas naquele momento.

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Mas, como um exímio explorador de jogos independentes, resolvi revisitar a experiência com mais atenção e dar uma nova oportunidade ao título desenvolvido pela SeismicSquirrel, com apoio da Chaos Theory Games. Agora em um contexto mais adequado para esse tipo de proposta narrativa.

O jogo nos apresenta uma Nova York em estilo decopunk, onde Manhattan assume a forma de uma cidade flutuante, acessível apenas aos mais privilegiados e influentes. Enquanto isso, o restante da população precisa sobreviver no mundo inferior, lidando com desigualdade, pressão social e dificuldades constantes no dia a dia.

Cidade flutuante de Nova York em Aether & Iron com estilo decopunk
(Reprodução)

Aether & Iron e sua estética única

A estética noir é extremamente marcante, e os combates em turnos se destacam pelas decisões estratégicas que exigem atenção a cada ação tomada. Para quem aprecia mecânicas baseadas em dados, a sensação remete diretamente aos RPGs clássicos de mesa —; ainda que, em determinados momentos, pareça que o próprio jogo dita o rumo dos acontecimentos, especialmente quando faltam atributos adequados para determinadas escolhas mais exigentes.

Logo no início, conhecemos Gia Randazzo, uma ladra experiente com uma reputação consolidada no submundo, mas que ainda carrega pendências com figuras perigosas e influentes. Por necessidade, ela passa a aceitar trabalhos que normalmente recusaria, como escoltar a jovem e aparentemente ingênua Nellie Renhardt em uma missão que rapidamente se mostra mais complexa do que o esperado.

Nada será simples nessa jornada — afinal, quando a situação aperta, não há espaço para escolher serviço, e cada decisão pode trazer consequências inesperadas.

Se você é fã de cinema ou quadrinhos com temáticas clássicas, é bem provável que identifique referências ao longo da narrativa. Há, inclusive, semelhanças com o filme Capitão Sky e o Mundo de Amanhã (2004), estrelado por Jude Law, Gwyneth Paltrow e Angelina Jolie — uma obra pouco comentada hoje em dia, mas que ainda assim vale a pena conferir caso você encontre disponível em alguma plataforma.

A ambientação traz uma cidade moldada por tecnologia antigravitacional, inserindo o jogador em meio a conspirações, crime organizado e disputas políticas em um cenário urbano verticalizado, onde diferentes camadas sociais coexistem de forma tensa.

Diferente das inspirações citadas, o jogo aposta em diálogos com estrutura de novel, utilizando uma linguagem mais refinada e elaborada — algo cada vez mais raro na indústria atual. O inglês utilizado segue um tom culto e característico da época retratada, refletido também na localização em português brasileiro de forma bastante competente.

Dubladores de Aether & Iron envolvidos na narrativa do jogo
(Reprodução)

Sim, o jogo conta com interface e legendas em português, o que se torna um diferencial importante, considerando o forte foco narrativo. Inclusive, até mesmo jogadores com domínio do inglês podem se deparar com termos menos usuais, expressões de época ou construções linguísticas mais sofisticadas.

A protagonista alterna entre narração em primeira e terceira pessoa para contextualizar os acontecimentos de forma mais completa. Embora seja uma escolha interessante, pode causar um certo estranhamento inicial para quem não está habituado com esse tipo de condução narrativa, já que não há um narrador tradicional mediando os eventos de forma constante.

A trama se desenvolve em torno do éter e de como essa descoberta provocou uma transformação global lucrativa e gananciosa. Quem domina essa tecnologia passa a ter controle absoluto, tornando qualquer indivíduo com esse conhecimento um alvo direto de criminosos organizados e grandes magnatas com interesses próprios.

A missão inicial de Gia é levar Nellie até um ponto específico para que a jovem cumpra seu objetivo. A relação entre as duas funciona bem dentro do contexto proposto, especialmente nas interações durante os diálogos e nas escolhas feitas pelo jogador, mas um aprofundamento maior teria elevado ainda mais o impacto emocional da jornada. Ainda assim, isso não prejudica a compreensão geral da história.

A proposta do estúdio, ao priorizar a narrativa com sistemas de combate em turnos e exploração em uma cidade com veículos voadores e rotas gravitacionais, pode não agradar a todos os perfis de jogadores. Ainda assim, as mecânicas envolvendo atributos, dados e dedução se mostram envolventes, funcionais e bem integradas à proposta.

Gameplay de Aether & Iron com combate em turnos e escolhas estratégicas
(Reprodução)

Como sugestão pessoal, seria interessante ver em uma possível continuação ou DLC a inclusão de confrontos contra inimigos comuns, ampliando a variedade de situações e trazendo mais dinamismo ao ritmo da experiência.

A trilha sonora merece destaque especial, contribuindo diretamente para a ambientação inspirada nos anos 1930. Esse cuidado também se reflete na direção de arte e na arquitetura, expressando ainda mais a identidade visual e o enredo do jogo.

Outro ponto relevante é a equipe de roteiristas, formada por profissionais experientes com passagens por franquias como Far Cry, Mass Effect e Sovereign Syndicate. Isso coloca Aether & Iron em uma posição competente quando o assunto é construção narrativa e desenvolvimento de mundo.

Mesmo sendo um jogo de nicho, existe potencial para alcançar reconhecimento semelhante ao de Dispatch, especialmente entre fãs de visual novels e experiências mais focadas em história e escolhas.

Por fim, Aether & Iron tem lançamento oficial para PC (Windows), via Steam, no dia 30 de março de 2026.

Jefão Calheiro
Jefão Calheiro
Apaixonado por games, filmes de ficção científica, séries e tudo que envolve tecnologia e inovação, com mais de 15 anos de experiência comentando e analisando esses temas. Além disso, sou curioso por astronomia e, nas horas vagas, tento observar o cosmos como um astrônomo amador. Acredito no poder das opiniões e no respeito à diversidade de pensamentos. Em minhas análises, busco compartilhar conhecimento de maneira clara e acessível, ajudando o público a se conectar com as novidades do mundo do entretenimento e da tecnologia. Ah, e como bom flamenguista, vibro junto com o maior clube brasileiro, o Flamengo! Vamos, gamernéfilos, porque todo dia tem novidade nesse universo em constante expansão. =)

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