Asha Sharma chegou para ser o bode expiatório dos estúdios

Opinião | A nova executiva do Xbox assume uma reestruturação delicada e pode acabar concentrando as críticas por decisões que vão muito além de sua gestão

- Publicidade -

Quando a Asha Sharma chegou à divisão de games da Microsoft, muita gente ficou preocupada. Afinal, sua trajetória dentro da empresa sempre esteve muito ligada à inteligência artificial, e ela mesma já comentou que nunca foi uma jogadora assídua. Para uma parte da comunidade, isso parecia um sinal de que alguém “de fora” estava assumindo uma das áreas mais importantes da empresa.

Só que existe um detalhe que muita gente esquece. Administrar uma divisão como o Xbox Game Studios vai muito além de gostar de videogame. O papel de um executivo é entender onde investir, quando investir e, principalmente, identificar o que pode trazer retorno para a empresa sem deixar de pensar no futuro da marca.

Leia também:

Na minha visão, foi justamente para isso que a Microsoft levou Asha Sharma para essa posição.

Ela não foi colocada ali para decidir qual franquia merece uma sequência ou qual gênero está na moda. O trabalho dela parece ser outro: reorganizar uma estrutura que ficou pesada demais ao longo dos últimos anos.

A própria Sharma comentou que algumas decisões dentro da Microsoft precisavam passar por até 14 níveis hierárquicos antes de serem aprovadas. Na visão dela, esse número deveria cair para cinco e, quando possível, até três. Pode parecer apenas um detalhe administrativo, mas isso muda completamente a velocidade com que uma empresa consegue reagir ao mercado.

Enquanto a concorrência toma decisões em semanas, uma empresa presa em vários níveis de aprovação pode levar meses para fazer exatamente a mesma coisa.

Essa talvez seja uma das mudanças mais importantes que ela pretende implementar, e pouca gente está falando sobre isso.

Ademais, a Microsoft começou uma reestruturação dentro do Xbox Game Studios. Estúdios que não estavam entregando o retorno esperado passaram a fazer parte dessa revisão interna. Em alguns casos, a ideia não parece ser simplesmente fechar equipes, mas buscar compradores ou permitir que continuem suas atividades de maneira independente quando existir uma solução viável.

Dissolvendo parte da estrutura do Xbox Game Studios

Na minha opinião, isso é muito mais humano do que simplesmente encerrar um estúdio inteiro. Uma das decisões anunciadas por Sharma é o caso da Compulsion Games e a Double Fine Productions voltarão a atuar como estúdios independentes. Os estúdios retomam a própria gestão, continuam donas de suas propriedades intelectuais, mantêm seus catálogos e ainda terão estrutura para desenvolver novos jogos.

Já a situação da Ninja Theory e da Undead Labs será diferente. As duas passarão a integrar uma nova estrutura societária, mas continuarão recebendo financiamento para concluir projetos importantes, como a franquia Senua e também State of Decay 3.

Enquanto isso, na França, a Arkane iniciou o processo obrigatório de consulta ao Comitê de Empresa. Esse procedimento faz parte da legislação trabalhista francesa e serve para avaliar quais serão os próximos passos do estúdio antes que qualquer decisão definitiva seja tomada.

É justamente aqui que acredito que Asha Sharma acabou assumindo o papel mais difícil de todos.

Ela virou o rosto de decisões que provavelmente já vinham sendo discutidas dentro da alta direção da Microsoft há bastante tempo.

Enquanto Sarah Bond ficou marcada pela estratégia de transformar o Xbox em um único ecossistema e Phil Spencer conduziu a expansão da marca durante anos, é o nome de Asha Sharma que começa a aparecer sempre que alguém fala sobre cortes, mudanças ou reorganização dos estúdios.

É por isso que digo que ela pode acabar se tornando o grande bode expiatório dessa nova fase do Xbox.

Muita gente poderá interpretar essas mudanças como um ataque à identidade de determinados estúdios ou até associar as decisões a questões ideológicas. Particularmente, não enxergo dessa forma.

Quem acompanha meus artigos de opinião aqui no MeUGamer sabe que sempre defendi uma ideia simples: empresas existem para gerar lucro. Elas podem investir em projetos experimentais, apoiar novas ideias e desenvolver jogos para diferentes públicos, mas, quando os resultados financeiros não aparecem, dificilmente a direção continuará apostando na mesma estratégia.

O mercado mudou

Os jogos estão mais caros para produzir, exigem equipes maiores, ciclos de desenvolvimento mais longos e investimentos que chegam à casa de centenas de milhões de dólares. Todo esse custo precisa voltar em forma de receita.

Quando isso não acontece, começam as mudanças.

Não é a primeira vez que a Microsoft passa por uma reestruturação, e provavelmente também não será a última. A diferença agora é que existe uma executiva assumindo publicamente uma série de decisões que inevitavelmente gerarão críticas.

Ao mesmo tempo, Sharma também ficará responsável por áreas extremamente lucrativas da divisão, como Mojang e King. Isso mostra que sua função não é apenas reorganizar estúdios que enfrentam dificuldades, mas administrar justamente os negócios que hoje sustentam boa parte da receita do Xbox.

Não posso negar que as demissões dentro da empresa podem afetar o desenvolvimento de alguns jogos. Mas, se a Microsoft acredita que esse é o caminho para reorganizar a divisão, o tempo será o responsável por mostrar se a estratégia funcionou. Normalmente, a indústria costuma se reinventar, e não me surpreenderia ver novos estúdios surgindo da união de profissionais que deixaram a empresa.

No fim das contas, ainda é cedo para dizer se essa estratégia dará certo ou não.

Enquanto isso, não será em 2026, nem provavelmente em 2027, que teremos uma resposta definitiva. Os efeitos reais dessa reorganização devem aparecer apenas nos próximos anos, quando os novos projetos começarem a chegar ao mercado e a Microsoft apresentar com mais clareza seus planos para a próxima geração do Xbox, incluindo iniciativas como o Projeto Helix. Além de melhorar aquisições e o interesse do público para o Game Pass com seu cloud gaming.

Enfim…

Se os resultados aparecerem, Asha Sharma será lembrada como a executiva que conseguiu reorganizar uma divisão que precisava mudar.

Se não aparecerem, dificilmente ela escapará das críticas.

É justamente por isso que acredito que Asha Sharma chegou ao Xbox para assumir um papel que poucos gostariam de ocupar: o de carregar nas costas o peso de decisões corporativas que envolvem muito mais pessoas do que apenas quem aparece na linha de frente.

E agora eu deixo a pergunta para você, Gamernéfilo: na sua opinião, essa reestruturação pode recolocar o Xbox no caminho do crescimento ou a Microsoft demorou demais para fazer essas mudanças?

Jefão Calheiro
Jefão Calheiro
Apaixonado por games, filmes de ficção científica, séries e tudo que envolve tecnologia e inovação, com mais de 15 anos de experiência comentando e analisando esses temas. Além disso, sou curioso por astronomia e, nas horas vagas, tento observar o cosmos como um astrônomo amador. Acredito no poder das opiniões e no respeito à diversidade de pensamentos. Em minhas análises, busco compartilhar conhecimento de maneira clara e acessível, ajudando o público a se conectar com as novidades do mundo do entretenimento e da tecnologia. Ah, e como bom flamenguista, vibro junto com o maior clube brasileiro, o Flamengo! Vamos, gamernéfilos, porque todo dia tem novidade nesse universo em constante expansão. =)

Gamernéfilos, comentem aqui!

Este site utiliza o Akismet para reduzir spam. Saiba como seus dados em comentários são processados.