Os jogos cozy geralmente são aqueles feitos para relaxar. São aconchegantes, têm um visual interessante e aquela música tranquila, às vezes em estilo lo-fi, que faz você começar a pensar na vida, esquecer os problemas e simplesmente mergulhar no jogo. É uma experiência casual, sem compromisso. Mas isso não significa que esses títulos também não possam ser interessantes e exigir que o jogador pense.
Antigamente, já tínhamos jogos com características semelhantes, sendo The Sims um dos exemplos mais conhecidos. Com o passar do tempo, o mercado começou a receber mais títulos voltados à simulação, nos quais você pode ser botânico, jardineiro, cuidar de pequenas vilas, pintar e realizar outras atividades que, em teoria, deveriam proporcionar momentos de tranquilidade.

O grande problema dos jogos cozy é que, quando não são bem trabalhados, aquilo que deveria ser calmo e relaxante pode se tornar muito complicado.
O jogador que procura um momento para relaxar e aliviar o estresse pode acabar não conseguindo fazer isso porque o jogo é mal otimizado; exige muito para liberar conquistas ou transforma as tarefas em uma lista de afazeres que precisa ser cumprida. Em vez de encontrar um espaço para descansar, a pessoa acaba lidando com situações tão estressantes quanto as da vida real.
Isso cria uma contradição quando pensamos na ideia dos jogos aconchegantes. Afinal, se alguém procura um título desse gênero para se distrair um pouco, não deveria precisar enfrentar tantas dificuldades para aproveitar o que ele oferece.
Eu mesmo já tentei jogar alguns desses títulos e, nos últimos tempos, percebi o quanto certos jogos cozy podem ser estressantes em determinados momentos. Como costumo receber jogos desse gênero para análise, algumas vezes acabo não resgatando as chaves. Em outras ocasiões, resgato, mas prefiro jogar casualmente, sem necessariamente pensar em uma análise ou em terminar tudo o que o jogo oferece.
O que tenho percebido é que até mesmo o tutorial pode se tornar um obstáculo. Em alguns jogos, a quantidade de informações apresentada logo no início é tão grande que você acaba querendo deixar o título de lado, em vez de continuar jogando para descobrir o que ele tem a oferecer.
E não é só isso. Também existem os problemas técnicos.
Muitos jogos cozy são desenvolvidos com orçamentos menores, mas isso não significa que seus desenvolvedores não tenham qualidade. Há títulos desse gênero com um público fiel e boas vendas. O problema é quando parece que o jogo não passou por testes suficientes antes do lançamento. Ficando restrito ao trabalho da própria equipe de desenvolvimento, sem um processo mais amplo de avaliação e feedback dos jogadores.

Isso pode resultar em problemas que prejudicam a experiência. Algumas construções não funcionam como deveriam, determinados botões apresentam falhas e a jogabilidade fica travada. Há também situações em que a sensibilidade dos controles atrapalha atividades que deveriam ser simples.
Imagine que você esteja tentando pintar uma casa. Você movimenta o pincel pela tela, mas a pintura não acontece como deveria. Você insiste, tenta novamente e começa a se perguntar se está fazendo algo errado ou se o jogo apresentou algum problema. Depois de perder um tempo tentando resolver a situação, acaba precisando reiniciar o título para descobrir que realmente havia uma falha técnica.
Não há necessidade de passar por isso em uma atividade que deveria ser relaxante.
Esses problemas podem fazer com que muitos jogadores abandonem o jogo antes mesmo de terminá-lo. E, nesse caso, não estamos falando de uma dificuldade bem construída ou de um desafio que exige raciocínio. Estamos falando de obstáculos que interrompem a experiência e afastam o jogador daquilo que ele procurava quando decidiu experimentar o título.
Por isso, minha recomendação para os desenvolvedores é investir em mais testes antes do lançamento. Buscar feedback dos jogadores, disponibilizar demonstrações, realizar testes alfa e beta e participar de festivais, como os da Steam, são maneiras de identificar problemas e entender como o público reage ao jogo.
Essas etapas podem ajudar a corrigir falhas antes do lançamento e proporcionar uma experiência mais satisfatória, o que também contribui para que o título conquiste seu público e tenha um bom desempenho comercial.
Temos jogos muito interessantes nesse segmento, como Pokémon Pokopia, Botany Manor, Tiny Glade e Two Point Museum. São exemplos de títulos que mostram como esse tipo de enredo pode oferecer atividades variadas e momentos agradáveis para quem procura algo diferente. Outro título que merece destaque é Dressmaker, que, além de sua imersão modesta e instigante, tem uma história curiosa por trás de seu desenvolvimento. Uma jovem cujo o nome é Sabrina Becker, impedida de costurar devido a uma condição genética, inspirou o namorado, o desenvolvedor Jonathan Hon, a criar o jogo, que chamou a atenção dos jogadores na Steam. Ao qual, se tornou uma opção interessante para este gênero sem grandes estresses.

Ainda existem muitos outros jogos que permitem aproveitar esse tempo livre sem compromisso. A ideia é poder jogar, descontrair e passar alguns minutos ou horas longe dos problemas cotidianos, sem transformar cada atividade em uma obrigação.
É isso que acredito que os jogos cozy deveriam entregar: uma experiência envolvente, mas que respeite a intenção de quem está jogando. Nem todo jogador quer cumprir todas as tarefas, desbloquear cada conquista ou aprender dezenas de mecânicas logo nos primeiros minutos. Às vezes, a pessoa só quer entrar no jogo e aproveitar o momento.
Essa investida vale para os títulos lançados no PC, Xbox, Nintendo Switch e PlayStation, assim como para os jogos mobile, disponíveis em dispositivos iPhone e Android. Existem muitas, principalmente nos jogos desenvolvidos para PC e consoles, que também podem oferecer experiências mais voltadas à tela grande.
No fim, acredito que um bom jogo cozy não precisa ser simplório, nem deixar de apresentar atividades interessantes. Ele pode ter sistemas de simulação, tarefas, desafios e uma boa variedade de conteúdos. O importante é que esses elementos não acabem prejudicando aquilo que torna o gênero tão atraente.
Se a proposta é relaxar, o jogo precisa permitir que o jogador relaxe. Afinal, já temos preocupações suficientes na vida real. Quando decidimos entrar em um mundo virtual para descansar um pouco, o mínimo que esperamos é conseguir aproveitar esse tempo sem transformar o lazer em mais uma fonte de estresse.
