Brasil Game Show 2026: a alegria do contraditório

Uma edição que deixou perguntas no ar e merece ser observada além do que aparece nos corredores

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A cada edição da Brasil Game Show (BGS), volta a circular uma discussão que já parece fazer parte do calendário do evento: estaria a feira chegando ao fim? Em 2026, com menos estandes em comparação ao ano anterior, o assunto ganhou força nas redes sociais. O que é interessante, porém, não foi apenas a redução da estrutura, mas a reação de algumas pessoas que pareciam comemorar o fato.

É uma situação que merece reflexão. Afinal, o Brasil não tem tantos eventos de games com a dimensão da BGS. Ver uma feira desse porte perder espaço não deveria ser motivo de celebração para quem acompanha a indústria, trabalha com ela ou depende de suas oportunidades para produzir conteúdo, estabelecer contatos e conhecer as novidades que chegam ao mercado.

Ainda assim, há quem pareça encontrar satisfação nessa diminuição. E a contradição fica mais evidente quando observamos que algumas dessas mesmas pessoas continuam procurando credenciamento, entrevistas e oportunidades de participar das próximas edições.

Estande da Nintendo com o jogo Nintendo Switch Sports Resort na Brasil Game Show 2026
(Reprodução – Créditos: Rodrigo Fernandes)

Não se trata de impedir críticas à BGS. Pelo contrário, questionar a organização, cobrar melhorias e apontar problemas faz parte do trabalho de quem acompanha o evento. A questão é outra. Quando a crítica dá lugar à torcida pelo enfraquecimento da feira, vale perguntar o que se espera ganhar com isso.

Menos estandes, mas e os jogos?

A redução de estandes foi perceptível na BGS 2026. Ignorar esse aspecto seria fechar os olhos para o que aconteceu. Entretanto, avaliar uma edição apenas pelo tamanho de sua estrutura é deixar de lado uma parte importante do evento: os jogos que chegam ao público.

Na nossa avaliação, esta edição se destacou pela quantidade de títulos que pudemos conhecer antecipadamente e pelo material que conseguimos produzir para o MeUGamer. Empresas como SEGA, Nintendo, Activision e Square Enix marcaram presença com jogos que os visitantes tiveram a oportunidade de testar.

A SEGA, por exemplo, levou vários títulos para a feira, tais como: Alien: Isolation 2, Persona 4 Revival, Sonic Pico Park, Stranger Than Heaven e Crazy Taxi. Enquanto outras empresas também ofereceram demonstrações de jogos que despertavam o interesse de quem acompanha os lançamentos da indústria. Para quem trabalha com notícias, impressões e análises, isso representa uma oportunidade perfeita de encontrar pautas e produzir conteúdo diretamente do evento.

Estande da SEGA na BGS 2026, para jogar Alien: Isolation 2
Estande da SEGA onde era possível jogar Alien: Isolation 2 na Brasil Game Show 2026. – Créditos: Rodrigo Fernandes.

E foi esse um dos aspectos que mais chamaram minha atenção nesta edição. Mesmo com a diminuição dos estandes, tivemos bastante material relacionado ao nosso nicho de cobertura. Em alguns momentos, a quantidade de jogos disponíveis para conhecer e transformar em conteúdo acabou se tornando um dos pontos altos da visita.

Isso não significa que a redução da estrutura deva ser ignorada ou que a feira não tenha espaço para melhorar como mencionado anteriormente. Significa apenas que uma avaliação precisa considerar mais de um fator. A quantidade de estandes, por si só, não conta toda a história de uma edição.

O custo de colocar uma marca dentro da feira

Existe outro elemento crucial, que nem sempre aparece nas discussões sobre a BGS: o investimento necessário para uma empresa participar de um evento desse porte.

Um estande não se resume ao espaço ocupado no pavilhão. Há despesas com montagem, instalações, equipamentos, transporte, equipes e profissionais responsáveis pelo atendimento ao público durante os dias de feira. Dependendo do tamanho da operação, a conta cresce consideravelmente.

Monster Machine da Monster na BGS
Visitantes circulam pelos corredores da Brasil Game Show 2026 durante a feira de games

Para algumas marcas, também é preciso levar em consideração o desenvolvimento de atividades, a contratação de serviços e a logística necessária para apresentar seus produtos. Tudo isso exige planejamento e orçamento.

E existe uma diferença importante entre participar de um evento para vender diretamente e investir em presença de marca. Enquanto empresas de periféricos e outros segmentos podem comercializar produtos durante a feira, muitas empresas de games utilizam esse espaço principalmente para apresentar lançamentos, aproximar-se do público e fortalecer sua imagem.

O retorno, nesses casos, nem sempre aparece imediatamente no caixa. Ele pode estar na divulgação, no relacionamento com consumidores e na repercussão que o jogo recebe antes do lançamento. São benefícios que podem justificar o investimento, mas que precisam ser avaliados dentro da estratégia de cada empresa.

Quando os custos aumentam, manter uma estrutura semelhante à do ano anterior pode se tornar mais difícil. E é preciso lembrar que a inflação e o encarecimento de serviços também afetam o planejamento das empresas.

Um ano que exige mais cuidado com os investimentos

Durante minha conversa com nosso companheiro de bancada, Fabio Mazzini, trouxe um ponto importante a partir de sua experiência com o varejo e o comércio eletrônico: o cenário econômico influencia as decisões de investimento das empresas.

Em um período de incertezas, as áreas de marketing precisam trabalhar com os recursos disponíveis e, muitas vezes, buscar resultados semelhantes aos do ano anterior com orçamentos menores. Quando os custos sobem, o desafio fica ainda maior.

Esse movimento não se restringe ao mercado de games. Eventos corporativos de diferentes setores também dependem das condições econômicas, das prioridades das empresas e da disposição das marcas para investir em ações presenciais.

A BGS está inserida nessa realidade. Por isso, a redução de estandes precisa ser observada dentro de um contexto mais amplo, sem que isso signifique ignorar as responsabilidades da organização ou as expectativas do público.

Área da BGS Arcade no evento para jogos de fliperama
Créditos: Rodrigo Fernandes

Também é necessário considerar o calendário de 2026 e as particularidades de um ano eleitoral, que podem influenciar determinadas decisões de investimento. Isso não permite atribuir toda a redução a uma única causa, mas ajuda a compreender por que o cenário exige uma análise mais cuidadosa.

O problema é que, nas redes sociais, uma discussão com tantas variáveis acaba reduzida a uma conclusão simples: a feira está acabando.

Essa leitura pode gerar engajamento, mas não necessariamente explica o que está acontecendo.

Afinal, qual BGS queremos para o futuro?

A Brasil Game Show ainda tem desafios pela frente. É natural desejar uma feira maior, com mais marcas, grandes nomes da indústria e uma quantidade ainda maior de jogos disponíveis para o público. Esse crescimento beneficia os visitantes, a imprensa, os anunciantes e as próprias empresas que encontram no evento uma oportunidade de se aproximar do mercado brasileiro.

Ao mesmo tempo, é preciso reconhecer o que a edição de 2026 ofereceu. A redução de estandes não impediu que encontrássemos jogos relevantes para testar nem que produzíssemos conteúdo sobre os títulos apresentados. Para o MeUGamer, essa foi uma parte positiva da cobertura deste ano.

É por isso que a discussão não deveria se limitar à comparação entre o tamanho dos pavilhões. O que queremos ver na BGS daqui para frente? Uma feira que consiga reunir mais empresas, oferecer mais jogos e ampliar as oportunidades para o público? Ou uma discussão permanente sobre seu possível fim, repetida a cada edição, independentemente do que acontece dentro dos corredores?

Criticar é legítimo. Cobrar evolução também. Mas comemorar a perda de espaço de um dos principais eventos de games do país é outra história.

Apresentação da Video Game Orchestra na BGS 2026
Imagem reprodução – Créditos: Rodrigo Fernandes

A BGS precisa continuar evoluindo, e esperamos que as próximas edições consigam recuperar espaço, atrair mais investimentos e trazer ainda mais novidades para os jogadores brasileiros. Quando um evento cresce, as oportunidades também podem crescer com ele.

Por fim, enfim, quem mais tem a ganhar com uma Brasil Game Show forte é o público brasileiro. São os visitantes que podem experimentar jogos antes do lançamento, conhecer novidades e se aproximar de uma indústria que nem sempre oferece essas oportunidades fora dos grandes eventos.

Ademais, mesmo diante de uma edição com menos estandes, nossa expectativa é voltar no próximo ano e encontrar uma feira ainda maior. Não por acreditar que tudo está perfeito, mas porque o fortalecimento da BGS interessa a quem trabalha com games e a quem deseja ver o mercado brasileiro ocupar um espaço cada vez mais relevante.

Talvez a maior contradição esteja nesse elemento: desejar que a feira continue existindo e, ao mesmo tempo, comemorar quando ela perde parte de sua dimensão.

Que a próxima edição nos dê mais motivos para discutir os jogos apresentados, as novidades da indústria e as oportunidades que o evento pode oferecer — e menos motivos para especular sobre seu fim.

Jefão Calheiro
Jefão Calheiro
Apaixonado por games, filmes de ficção científica, séries e tudo que envolve tecnologia e inovação, com mais de 15 anos de experiência comentando e analisando esses temas. Além disso, sou curioso por astronomia e, nas horas vagas, tento observar o cosmos como um astrônomo amador. Acredito no poder das opiniões e no respeito à diversidade de pensamentos. Em minhas análises, busco compartilhar conhecimento de maneira clara e acessível, ajudando o público a se conectar com as novidades do mundo do entretenimento e da tecnologia. Ah, e como bom flamenguista, vibro junto com o maior clube brasileiro, o Flamengo! Vamos, gamernéfilos, porque todo dia tem novidade nesse universo em constante expansão. =)

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