Review | Lanternas – 1 x 01: Piloto

Com Aaron Pierre e Kyle Chandler, nova série do DC Studios aposta na dinâmica de parceiros e em um mistério com elementos de ficção científica

- Publicidade -

Existe uma expectativa considerável em torno de Lanternas, especialmente pela maneira como o DC Studios vem apresentando a série ao público. A produção protagonizada por John Stewart e Hal Jordan foi frequentemente associada a True Detective, não apenas pelo tom mais investigativo, mas principalmente pela proposta de acompanhar dois personagens diferentes diante de um caso aparentemente inexplicável.

Com Damon Lindelof (Watchmen), Chris Mundy (Ozark) e o quadrinista Tom King à frente do projeto, a série parece interessada em explorar o lado menos convencional do universo dos Lanternas Verdes. O primeiro episódio, porém, mostra que a comparação com True Detective funciona mais como referência de atmosfera e estrutura do que como tentativa de reproduzir a série da HBO.

O resultado é um episódio inicial que aposta muito mais na construção de personagens e do mistério do que em grandes demonstrações de poder. E, nesse aspecto, Lanternas encontra uma de suas principais forças.

Review | Lanternas - 1 x 01: Piloto
Reprodução: HBO Max

John Stewart e Hal Jordan formam uma dupla improvável

A história começa com um breve retorno à infância de John Stewart, apresentando a influência de seu pai e as lições que ajudaram a moldar a personalidade do futuro herói. A narrativa então avança para 2016, quando Stewart, agora interpretado por um excelente Aaron Pierre, começa seu treinamento sob a responsabilidade de Hal Jordan, vivido por Kyle Chandler. A relação entre os dois é imediatamente estabelecida como o principal motor do episódio.

John é disciplinado, responsável e possui uma postura muito mais rígida, enquanto Hal representa praticamente o seu oposto. Veterano da Tropa dos Lanternas Verdes e antigo ídolo de Stewart, Jordan é experiente, irreverente e parece carregar uma relação cada vez mais complicada com o próprio papel como herói.

A dinâmica funciona porque a série entende que não precisa transformar os dois em amigos imediatamente. Pelo contrário: boa parte do humor nasce justamente da irritação de John diante do comportamento de Hal.

A estrutura lembra o tradicional modelo de buddy cop, utilizado em filmes como 48 Horas e Máquina Mortífera: dois indivíduos completamente diferentes são obrigados a trabalhar juntos e, justamente por causa dessas diferenças, acabam formando uma parceria mais interessante.

Aqui, entretanto, a fórmula ganha uma nova configuração. O veterano é o sujeito irresponsável e aparentemente cansado de tudo, enquanto o novato é o militar disciplinado que tenta seguir as regras. E Aaron Pierre e Kyle Chandler têm química suficiente para fazer essa dinâmica funcionar.

O treinamento de John esconde mais do que parece

O primeiro episódio também estabelece uma peculiaridade importante na relação entre os dois Lanternas. John foi escolhido pelos Guardiões do Universo para ser treinado por Hal e, eventualmente, assumir o anel. A situação, porém, representa uma quebra da tradição estabelecida para os personagens.

Normalmente, quando um Lanterna Verde morre, seu anel procura automaticamente outro indivíduo considerado digno. No caso de John, entretanto, o processo parece estar sendo conduzido de maneira diferente. Hal afirma que John ainda não pode receber o anel porque existe apenas um Lanterna por planeta. O problema é que o veterano claramente não revela tudo o que sabe ao seu aprendiz.

Essa falta de transparência cria uma camada adicional para a relação entre os personagens. Hal não está simplesmente treinando John: ele também parece prepará-lo para uma realidade que ainda não está disposto a revelar. A própria forma de treinamento reforça essa personalidade. Em determinado momento, Hal deixa John dentro de um carro desgovernado, com o anel ao seu alcance, enquanto o veículo segue em direção a um penhasco.

A sequência resume perfeitamente a filosofia de Jordan: ele não pretende ensinar John apenas por meio de instruções. Quer obrigá-lo a tomar decisões sob pressão.

Review | Lanternas - 1 x 01: Piloto
Reprodução: HBO Max

Rushville transforma a série em um mistério policial

A verdadeira trama começa quando Hal e John chegam a Rushville, Nebraska, cidade onde um tiroteio ocorrido durante uma partida de futebol americano deixou várias vítimas. A princípio, a investigação parece relativamente simples. Para Hal, entretanto, existe algo muito maior por trás do acontecimento: ele acredita que os mortos e o principal suspeito são extraterrestres.

A hipótese é imediatamente recebida com desconfiança por John e pela xerife local, Kerry, interpretada por Kelly Macdonald. É justamente nesse momento que Lanternas começa a se aproximar mais da estrutura de um thriller policial.

A série não trata o caso simplesmente como uma oportunidade para colocar os heróis usando seus poderes. Em vez disso, cria uma pequena comunidade cheia de relações familiares, interesses particulares e personagens que parecem esconder alguma coisa.

Entre eles está William Macon, interpretado por Garret Dillahunt. Sogro da xerife Kerry, Macon é uma figura poderosa dentro da região e comanda uma milícia cuja propriedade funciona praticamente como um centro de treinamento militar. A presença desse personagem imediatamente amplia o mistério.

Também conhecemos Billy, filho de William e responsável por tirar Hal da cadeia depois de uma confusão em um bar, e Zoe, esposa de William, que acaba se aproximando de John sem que o recruta saiba inicialmente com quem está se envolvendo.

São personagens que, neste primeiro momento, funcionam mais como peças de um quebra-cabeça do que como figuras plenamente desenvolvidas. Ainda assim, a forma como são introduzidos deixa claro que a série pretende explorar a cidade como parte fundamental do mistério.

O episódio não tem pressa para revelar suas respostas

Uma das decisões mais interessantes de Lanternas é não transformar seu primeiro episódio em uma sucessão de batalhas. A investigação avança gradualmente, enquanto Hal tenta convencer os demais de que existe algo extraterrestre por trás do massacre. John, por sua vez, funciona inicialmente como contraponto racional ao veterano.

A relação entre Hal e Kerry também merece destaque. Os dois constantemente entram em conflito, e a troca de provocações entre Kyle Chandler e Kelly Macdonald está entre os momentos mais divertidos do episódio. A investigação finalmente chega a um ponto decisivo quando Hal consegue autorização para interrogar o suspeito preso após o tiroteio.

O interrogatório inicialmente parece confirmar que Jordan está equivocado. Entretanto, a situação rapidamente toma outro rumo. O suspeito revela sua verdadeira natureza extraterrestre e, antes que os Lanternas consigam obter respostas, provoca uma explosão que destrói boa parte da delegacia.

O anel de Hal é fundamental para proteger os sobreviventes, mas o acontecimento deixa muito mais perguntas do que respostas. E é justamente isso que o episódio deseja. Lanternas não está interessado apenas em explicar quem são os alienígenas ou por que eles estavam envolvidos no massacre. O objetivo parece ser construir uma conspiração maior a partir dessas primeiras peças.

Review | Lanternas - 1 x 01: Piloto
Reprodução: HBO Max

O salto temporal muda completamente a perspectiva

Se o episódio já terminasse com a explosão, teríamos uma introdução competente ao mistério. Mas Lanternas guarda sua maior surpresa para os minutos finais. A narrativa salta de 2016 para 2026. Dez anos depois dos acontecimentos apresentados anteriormente, John Stewart retorna a Rushville durante uma noite de inverno. Ele reencontra Kerry no mesmo estádio onde ocorreu o massacre e é conduzido pela arquibancada.

Então surge a imagem que provavelmente ficará na cabeça do espectador após o episódio: Hal Jordan está sem o anel, coberto de neve e aparentemente morto. A revelação muda completamente a maneira como enxergamos tudo o que veio antes.

Durante o episódio, Hal demonstra um comportamento autodestrutivo e parece cada vez menos interessado em preservar a própria vida. Sua postura sugere que existe algo profundamente errado com o personagem.

O salto temporal, portanto, transforma aquilo que parecia ser apenas uma investigação sobre um ataque alienígena em uma história que também envolve o destino de Hal Jordan. A grande questão passa a ser: o que aconteceu com ele durante esses dez anos?

A série encontra força justamente na escala humana

Um dos maiores acertos de Lanternas está em não depender exclusivamente da grandiosidade típica das histórias de super-heróis. Apesar de envolver alienígenas, anéis de poder e uma organização cósmica, o primeiro episódio passa boa parte do tempo em delegacias, bares, estradas e pequenas cidades.

Essa escolha aproxima a produção de um thriller policial tradicional e permite que os personagens tenham espaço para respirar. Hal Jordan não é apresentado simplesmente como um super-herói poderoso. Ele parece um homem cansado, impulsivo e carregando problemas que ainda não conhecemos completamente.

John, por outro lado, surge como alguém que tenta encontrar seu lugar em uma estrutura que parece ter sido construída para funcionar de maneira muito diferente daquela que ele conhece. A investigação serve, portanto, como ponto de encontro entre dois personagens que ainda precisam aprender a confiar um no outro.

Review | Lanternas - 1 x 01: Piloto
Reprodução: HBO Max

Uma promessa interessante para o DC Studios

O primeiro episódio de Lanternas ainda não permite afirmar se a série realmente alcançará o nível de True Detective, comparação que acompanha o projeto desde seus primeiros anúncios. Seria, inclusive, injusto exigir isso antes de conhecer a história completa. O que o episódio demonstra é que a produção encontrou uma identidade própria ao combinar mistério policial, ficção científica e dinâmica de parceiros.

A força está principalmente no elenco. Aaron Pierre transmite muito bem a disciplina e o conflito interno de John Stewart, enquanto Kyle Chandler encontra em Hal Jordan uma combinação interessante de experiência, sarcasmo e desgaste emocional. O mistério de Rushville também é suficientemente intrigante para sustentar a curiosidade, especialmente depois do salto temporal e da revelação envolvendo Hal.

Ainda existem muitas perguntas sem resposta, e algumas delas provavelmente só serão avaliadas corretamente quando a temporada avançar. Mas isso também faz parte do mérito do episódio: Lanternas termina fazendo o espectador querer descobrir o que aconteceu.

No fim, a série começa de maneira mais madura, investigativa e contida do que muitas produções de super-heróis, utilizando o universo dos Lanternas Verdes para contar uma história que parece tão interessada em pessoas e relações quanto em extraterrestres e poderes.

Se os próximos episódios conseguirem manter esse equilíbrio, Lanternas pode se tornar uma das produções mais interessantes da nova fase do DC Studios.

O primeiro episódio de Lanternas está disponível no HBO Max.

Marcus Vinicius
Marcus Viniciushttps://www.meugamer.com/
Entusiasta do universo dos animes, mangás e tokusatsu, também escrevo sobre cinema, séries e as principais tendências da cultura pop japonesa e ocidental. Meu propósito é compartilhar análises, curiosidades e novidades que aproximam fãs desse universo, unindo informação, entretenimento e paixão pela cultura geek. Do clássico ao contemporâneo, exploro o impacto de produções que marcaram gerações, discuto teorias, mergulho em personagens inesquecíveis e acompanho de perto os lançamentos que movimentam a comunidade otaku. Além do Japão, também abordo obras e fenômenos globais que moldam a cultura pop, trazendo conteúdos que despertam nostalgia, reflexão e novas descobertas para quem vive intensamente esse mundo.

Gamernéfilos, comentem aqui!

Este site utiliza o Akismet para reduzir spam. Saiba como seus dados em comentários são processados.