Depois de dedicar o episódio anterior quase inteiramente à origem de John Stewart, Lanternas retorna à investigação de Rushville e entrega, até aqui, seu capítulo mais eficiente na combinação entre drama de personagens, conspiração e ficção científica. “O Ícone” ainda carrega alguns dos problemas que acompanham a série desde o início, mas finalmente começa a transformar suas ideias promissoras em um conflito mais concreto.
O grande mérito do episódio está menos na investigação em si e mais na maneira como ela serve para aprofundar a relação entre Hal Jordan e John Stewart. A dupla deixa de funcionar apenas como uma versão cósmica da tradicional parceria entre policial veterano e novato e começa a construir uma dinâmica marcada por desconfiança, admiração e diferenças fundamentais sobre o que significa ser um Lanterna Verde.
Hal, interpretado por Kyle Chandler, continua sendo um personagem aparentemente difícil de decifrar. Rabugento, sarcástico e frequentemente convencido demais de suas próprias decisões, ele poderia facilmente cair no estereótipo do herói veterano que sabe tudo. O episódio, porém, começa a mostrar por que sua experiência importa.
Hal conhece os Guardiões, conhece a Tropa e, principalmente, conhece o funcionamento de uma instituição que John ainda enxerga de maneira muito mais idealizada. Depois de tudo o que foi revelado sobre a formação de Stewart, essa diferença ganha ainda mais peso.
John passou boa parte da vida acreditando que seguir regras e cumprir ordens era o caminho para se tornar aquilo que sempre lhe disseram que deveria ser. Hal, por outro lado, já aprendeu que instituições também podem manipular seus integrantes e que obedecer cegamente nem sempre significa fazer a coisa certa. É justamente nesse ponto que Lanternas começa a encontrar seu verdadeiro conflito.

Sinestro joga gasolina na relação entre os Lanternas
A participação de Sinestro é relativamente pequena, mas sua importância dramática é enorme. O antigo mentor de Hal não precisa recorrer a grandes ameaças ou demonstrações de poder para provocar estragos. Basta conversar. Sua interação com Hal funciona porque explora uma ferida muito específica: o medo de ser substituído.
Ao questionar o papel de John e insinuar que os Guardiões podem estar preparando uma nova geração para ocupar o lugar dos antigos Lanternas, Sinestro consegue colocar uma dúvida na cabeça de Hal sem precisar entregar todas as respostas. A influência do personagem permanece presente mesmo depois que ele deixa a cena.
Essa é uma utilização inteligente de um personagem tão importante da mitologia dos Lanternas Verdes. Em vez de transformar Sinestro imediatamente em um vilão tradicional, a série o apresenta como alguém que conhece Hal profundamente e sabe exatamente quais palavras utilizar para desestabilizá-lo.
Mais interessante ainda é perceber que suas provocações encontram terreno fértil porque existe uma verdade por trás delas. John realmente está sendo preparado para ocupar um espaço dentro da Tropa, enquanto Hal parece cada vez mais deslocado de uma instituição que já não confia nele da mesma maneira.
O mistério de Rushville finalmente começa a andar
Se o drama entre os protagonistas funciona melhor, a investigação também dá alguns passos importantes. Hal e John avançam sobre a propriedade de William Macon e encontram evidências de que o envolvimento da família com a tecnologia alienígena é muito maior do que parecia inicialmente.
A sequência de infiltração cumpre sua função narrativa, mas está longe de ser um dos momentos mais inspirados visualmente da temporada. Lanternas continua apostando em uma direção extremamente contida, mesmo quando a história pede um pouco mais de imaginação.
Essa escolha estética funciona melhor em cenas de diálogo e investigação do que nos momentos em que a série precisa demonstrar o potencial dos anéis. Há uma diferença entre usar a contenção para criar uma atmosfera e simplesmente não aproveitar as possibilidades visuais oferecidas pelo próprio universo.
Quando a trama finalmente escala para uma ameaça de proporções maiores, a produção demonstra que consegue trabalhar com uma dimensão mais grandiosa. O problema é que esses momentos ainda parecem exceções em uma série que, na maior parte do tempo, prefere esconder seus poderes atrás de uma fotografia escura e de ambientes pouco exuberantes.
Ainda assim, o avanço do caso é importante. As sucessivas pistas envolvendo William, Hector Hammond e Zoe podem parecer excessivamente convenientes, mas servem para aproximar a investigação da verdadeira ameaça por trás dos acontecimentos de Rushville. E é aí que o episódio encontra sua melhor virada.

A verdadeira ameaça estava mais perto do que parecia
A possibilidade de Zoe estar relacionada ao Manhunter muda completamente a leitura de algumas cenas anteriores. A personagem, até então associada principalmente ao núcleo humano de Rushville e à relação com John, passa a ocupar uma posição muito mais ambígua.
A revelação também funciona porque coloca John diante de um conflito que não pode ser resolvido simplesmente seguindo ordens. Se existe alguém próximo a ele envolvido com uma ameaça ligada diretamente aos crimes dos Guardiões, a questão deixa de ser apenas descobrir quem é o inimigo. John precisa decidir em quem confiar.
Esse é justamente o tipo de dilema que combina com o personagem apresentado no episódio anterior. Ele foi criado para cumprir uma missão. Agora, começa a descobrir que talvez precise questionar as próprias estruturas que determinaram seu caminho.
Por outro lado, o excesso de reviravoltas prejudica um pouco o impacto. Lanternas parece ter pressa em mostrar que ninguém é exatamente quem parece ser. Um suspeito é substituído por outro, uma revelação é imediatamente seguida por uma nova dúvida e a conspiração cresce quase em velocidade maior do que os personagens conseguem processá-la. O resultado é um mistério que avança, mas nem sempre convence.
Hal e John são o verdadeiro coração da série
Se existe uma razão para continuar acompanhando Lanternas, ela está cada vez mais evidente: Hal Jordan e John Stewart. A química entre Kyle Chandler e Aaron Pierre melhora a cada episódio, e “O Ícone” finalmente encontra uma maneira de fazer os dois personagens entrarem em conflito sem transformar a relação em uma disputa previsível. O mais interessante é que Hal e John começam a se admirar justamente enquanto percebem suas diferenças.
John pode ser mais disciplinado e determinado, mas ainda não possui a experiência necessária para compreender todas as consequências de suas escolhas. Hal, por sua vez, possui décadas de vivência, mas carrega consigo uma quantidade considerável de arrogância, culpa e desilusão.
Uma das melhores ideias do episódio está justamente na maneira como Hal enxerga John. Ele pode provocá-lo, criticá-lo e até questionar sua capacidade, mas também começa a reconhecer um talento que o próprio John ainda não compreende completamente.
Isso ganha força quando a criatividade de Stewart entra em discussão. Para alguém que passou a vida inteira sendo treinado para controlar o medo, seguir ordens e agir como soldado, descobrir que sua maior qualidade pode estar justamente na capacidade de imaginar é uma escolha temática muito boa.
O anel dos Lanternas Verdes sempre foi associado à força de vontade, mas também depende da capacidade de criar. E John Stewart, que passou a infância tendo sua individualidade constantemente reprimida, talvez precise justamente recuperar essa criatividade para se tornar o herói que os Guardiões esperam.

Uma série que ainda tem medo de ser Lanterna Verde
O maior problema de Lanternas continua sendo sua dificuldade em conciliar as duas séries que parece querer ser. De um lado, existe um thriller policial sobre assassinatos, conspirações e uma pequena cidade cheia de segredos. Do outro, existe uma história sobre uma organização espacial, alienígenas, anéis capazes de criar construções de energia e máquinas responsáveis por genocídios interplanetários.
Quando esses dois elementos se encontram, a série funciona. Quando tenta esconder um deles para privilegiar o outro, perde força. Visualmente, essa contradição também permanece. A fotografia sóbria e a atmosfera de drama policial ajudam a diferenciar Lanternas de outras produções de super-heróis, mas a série às vezes parece excessivamente preocupada em não parecer uma história de super-heróis.
Há uma certa timidez em explorar os anéis, os construtos e o próprio universo cósmico. A contenção pode ser uma escolha interessante, mas precisa ser acompanhada por criatividade. Caso contrário, o resultado corre o risco de parecer apenas um drama policial convencional com elementos de ficção científica. “O Ícone” chega mais perto de superar esse problema justamente quando permite que a mitologia dos Lanternas interfira diretamente na vida dos personagens.
Um dos melhores episódios até aqui
O quarto episódio não transforma Lanternas em uma série completamente diferente, mas mostra que a produção finalmente está começando a entender onde está sua força. A investigação de Rushville continua irregular, as reviravoltas são numerosas demais e algumas soluções parecem convenientes. A direção também permanece excessivamente contida para uma história com tamanho potencial visual.
Mas o conflito entre Hal e John funciona. Sinestro funciona. A ameaça dos Manhunters ganha novas camadas. E, principalmente, John Stewart começa a deixar de ser apenas o aprendiz para se tornar um personagem com suas próprias convicções e conflitos.
Hal também ganha força porque sua experiência passa a ter uma função dramática clara. Ele não é apenas o Lanterna veterano que sabe mais que John. É alguém que já esteve dentro do sistema, foi moldado por ele e agora consegue enxergar suas contradições. Esse é o ponto em que Lanternas começa a ficar realmente interessante.
Ainda não é uma grande série, mas “O Ícone” é provavelmente o episódio que melhor demonstra o que ela pode se tornar. Se a produção conseguir equilibrar o mistério policial com a mitologia dos Lanternas Verdes e continuar desenvolvendo a relação entre Hal e John, existe finalmente um caminho para que a série encontre uma identidade própria.
Por enquanto, Lanternas ainda está procurando seu lugar entre o drama policial e a aventura cósmica. Mas, pela primeira vez, parece ter encontrado algo mais importante: uma história que realmente vale a pena acompanhar.
