Mixtape jamais enganou ninguém — e isso sempre esteve claro desde o início

O jogo que dividiu a comunidade nunca enganou ninguém desde o primeiro trailer

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O anúncio de Mixtape, novo jogo publicado pela Annapurna Interactive e desenvolvido pelo estúdio australiano Beethoven & Dinosaur, nunca escondeu sua proposta. Pelo contrário, ela sempre esteve estampada em cada trailer divulgado. Três amigos vivendo uma última grande aventura antes da vida adulta, embalados por músicas nostálgicas, conversas existenciais e aquela sensação melancólica de despedida que muitos jogos narrativos modernos tentam capturar.

Quem acompanha a indústria dos games já sabia exatamente o tipo de experiência que estava sendo apresentado ali. Não era um jogo focado em ação dinâmica, sistemas complexos ou revoluções de gameplay. Era um projeto claramente direcionado para o chamado “Games for Impact”, seguindo a linha de outros títulos independentes que priorizam atmosfera, sentimentos e identificação sentimental acima de qualquer outra coisa.

 Três personagens de Mixtape deitados sobre o capô de um carro em ângulo aéreo, cena contemplativa do jogo da Annapurna Interactive
Mixtape aposta em momentos contemplativos e melancólicos para construir sua identidade narrativa entre os três protagonistas — (Reprodução)

E isso não é um problema

O erro talvez esteja em parte do público que criou expectativas completamente diferentes daquilo que o jogo sempre demonstrou ser. Mixtape nunca vendeu a ideia de ser um “blockbuster épico”. Nunca prometeu reinventar narrativas interativas. Desde o começo, o foco era outro, criar uma experiência intimista, estilizada com impacto para uma geração específica.

Existe uma tentativa evidente de buscar a essência de aventuras juvenis dos anos 80 e 90. Filmes como Os Goonies e Os Garotos Perdidos aparecem quase como referência espiritual da obra. Só que Mixtape não tenta copiar aqueles diálogos ou aquele comportamento adolescente clássico daquela época — até deveria. O jogo pega essa estética nostálgica e adapta para os jovens atuais, com suas próprias inseguranças, formas de se comunicar e enxergar o mundo.

Talvez justamente por isso muita gente acima dos 30 ou 40 anos sinta um certo distanciamento em relação aos diálogos e à maneira como os personagens interagem. A trilha sonora pode até conversar com gerações anteriores, mas o texto claramente conversa mais com o público contemporâneo.

E novamente: isso nunca foi escondido em Mixtape

O jogo sempre deixou claro que seria uma experiência nichada, extremamente baseada em imersão da geração Z. Cada música funciona quase como um capítulo de sensações. Existe uma preocupação enorme com direção artística, enquadramentos e construção estética. O visual inspirado em stop motion chama atenção justamente por ser algo difícil de executar bem dentro dos videogames, e nisso o estúdio merece reconhecimento. Há identidade visual, personalidade e intenção artística em praticamente tudo que aparece na tela. A trilha sonora reúne artistas icônicos como Iggy Pop, Joy Division, The Smashing Pumpkins, DEVO, Roxy Music, Siouxsie and the Banshees. Além de Silverchair, que foi uma das bandas de post-grunge que mais curti na adolescência.

 Cena de gameplay de Mixtape com personagem correndo em campo florido e dourado, com elemento surreal ao fundo em torre de energia
Mixtape oferece cenas de gameplay abertas e estilizadas que exibem sua direção artística

Ao mesmo tempo, também é justo dizer que o jogo pode deixar a sensação de que “falta algo”. Algumas mecânicas parecem superficiais, certos momentos não alcançam o impacto emocional que claramente buscavam atingir e muitos diálogos soam como personagens tentando transmitir experiências de vida que ainda nem viveram completamente. Afinal, os protagonistas ainda são jovens demais para carregar parte do peso dramático que o roteiro tenta construir.

Mas isso não significa que o jogo enganou alguém.

Muito pelo contrário. Mixtape sempre foi exatamente aquilo que aparentava ser. Um jogo curto, focado em narrativa, medos, música e identificação da juventude atual. Uma experiência feita para um público muito específico, interessado mais na jornada do que em profundidade mecânica. Compreendo que alguns enxerguem o jogo como um Dear Esther, no qual você basicamente caminha enquanto a narrativa ocorre com pequenas interações. Ainda assim, existe um público que vai gostar justamente por se identificar com os personagens, mesmo que muita gente considere alguns momentos forçados.

A aclamação da crítica também não deveria surpreender ninguém. Jogos desse perfil costumam encontrar bastante espaço entre críticos que valorizam propostas autorais, direção artística e experiências que dialogam mais diretamente com seus próprios vieses contemplativos. Não é questão de “comprar narrativa” ou qualquer coisa parecida. É simplesmente um tipo de obra que conversa de forma mais próxima com determinados grupos, sensibilidades e perspectivas dentro da indústria.

No fim, talvez a maior verdade sobre Mixtape seja simples. Ele jamais enganou ninguém. Apenas decepcionou pessoas que esperavam algo completamente diferente do que os trailers já mostravam desde o início.

E isso faz bastante diferença. Por fim, o título está disponível desde 7 de maio de 2026 para PlayStation 5, Xbox Series X and Series S, Nintendo Switch 2 e PC via Steam.


Este artigo tem como objetivo demonstrar que o jogo foi desenvolvido para um público específico, sem adentrar nas controvérsias levantadas por parte da crítica. Trata-se apenas da opinião do autor e de sua experiência com o jogo. Além disso, evidencia que existem títulos para diferentes estilos e propostas, inclusive aqueles que podem transmitir comportamentos e perspectivas que nem todos irão absorver da mesma forma.

Jefão Calheiro
Jefão Calheiro
Apaixonado por games, filmes de ficção científica, séries e tudo que envolve tecnologia e inovação, com mais de 15 anos de experiência comentando e analisando esses temas. Além disso, sou curioso por astronomia e, nas horas vagas, tento observar o cosmos como um astrônomo amador. Acredito no poder das opiniões e no respeito à diversidade de pensamentos. Em minhas análises, busco compartilhar conhecimento de maneira clara e acessível, ajudando o público a se conectar com as novidades do mundo do entretenimento e da tecnologia. Ah, e como bom flamenguista, vibro junto com o maior clube brasileiro, o Flamengo! Vamos, gamernéfilos, porque todo dia tem novidade nesse universo em constante expansão. =)

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