The Sinking City 2: Review — um bom survival horror e uma franquia para conhecer

Franquia retorna com identidade e os elementos de horror

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A construiu boa parte de sua reputação em torno de jogos que colocam a investigação no centro do enredo. A desenvolvedora ficou conhecida especialmente por suas adaptações de Sherlock Holmes e, posteriormente, levou essa experiência para o horror investigativo de The Sinking City. A temática do primeiro jogo era colocar o jogador diante de uma cidade tomada pelo mistério, permitindo que pistas, documentos, personagens e acontecimentos fossem conectados para compreender o que estava acontecendo.

The Sinking City 2 decide seguir por outro caminho.

A sequência abandona o mundo aberto e reduz consideravelmente o lado da investigação para abraçar o survival horror. É uma mudança ousada e, em vários aspectos, coerente com o universo criado pela Frogwares. O problema é que, ao fazer isso, o estúdio não apenas muda a fórmula, ele também abre mão de algumas das características que davam personalidade à série.

O resultado é um jogo que funciona melhor quando assume sua inspiração em Resident Evil, mas que nem sempre consegue transformar essa influência em algo genuinamente próprio.

Calvin Rafferty enfrenta uma situação de perigo em The Sinking City 2
(Reprodução)

Vale lembrar que o estúdio levou The Sinking City 2 ao Kickstarter, estabelecendo uma meta de aproximadamente € 100 mil. A campanha arrecadou mais de 554 mil euros, contribuindo para o desenvolvimento do jogo.

Para quem não sabe, alguns anos atrás, a Frogwares travou uma disputa judicial com a Nacon envolvendo The Sinking City. O estúdio acusou a empresa francesa de violações contratuais, incluindo questões relacionadas a pagamentos e aos direitos de publicação e distribuição do jogo. A disputa se estendeu por anos e chegou a envolver versões do jogo publicadas pela Nacon sem a participação da Frogwares.

Em 2024, a Frogwares anunciou que havia se tornado a única publicadora de The Sinking City em todas as plataformas, encerrando a longa disputa com a Nacon.

Um The Sinking City diferente

A primeira coisa que precisa ficar evidente é que The Sinking City 2 não deve ser encarado como uma simples evolução do primeiro jogo.

A estrutura agora é muito mais linear, com áreas interligadas, atalhos, portas bloqueadas, recursos limitados e retornos frequentes a locais já visitados. A fórmula é familiar para quem acompanha o gênero do jogo. Explorar uma área, encontrar uma chave ou mecanismo, abrir um novo caminho, retornar a uma região anterior e administrar cuidadosamente aquilo que está no inventário. É uma estrutura que agrada fãs de outros títulos consagrados nessa temática.

O problema aparece quando lembramos de onde veio a série.

Elementos do jogo para exploração em The Sinking City 2.
(Reprodução)

No primeiro The Sinking City, investigar a cidade era parte fundamental da da imersão. Havia uma sensação de liberdade e descoberta que fazia o jogador se sentir responsável por juntar as peças do mistério. Em The Sinking City 2, essa sensação foi consideravelmente reduzida. Há investigação e existem puzzles, mas eles não possuem o mesmo protagonismo, apesar dos quebra-cabeças serem excelentes.

Alguns desafios funcionam bem e conseguem fazer o jogador observar o ambiente e interpretar pistas. Outros, entretanto, são muito mais próximos de encontrar uma chave para abrir uma porta. Há também momentos em que a progressão depende de encontrar uma área específica para ativar o próximo acontecimento, o que pode transformar a exploração em uma busca pouco intuitiva.

Nessa sequência ponto que a mudança de temática começa fazer diferença.

Lovecraft encontra Resident Evil

Não há como falar de The Sinking City 2 sem mencionar Resident Evil.

A influência está na estrutura, no gerenciamento do inventário, na escassez de munição, nos atalhos, nas portas que exigem determinados itens, nas salas seguras e até na presença de um perseguidor. Para alguns jogadores, essa aproximação é o grande acerto da sequência. Para outros, é o principal motivo para considerá-la uma continuação decepcionante — o que não é o meu caso.

O problema não está em utilizar uma fórmula conhecida. Survival horror e horror cósmico podem funcionar muito bem juntos. A questão é quanto da personalidade da Frogwares permanece quando tantas decisões parecem familiares.

Ambiente inundado de The Sinking City 2 durante a exploração
(Reprodução)

Em determinados momentos, The Sinking City 2 parece menos interessado em mostrar como a Frogwares faria um survival horror e mais preocupado em reproduzir aquilo que já funciona no gênero. Até faria sentido em questão de vendas se for olhar para algo mais popular.

Isso fica particularmente evidente nos confrontos. A escassez de munição deveria transformar cada encontro em uma decisão: lutar ou fugir? Gastar recursos agora ou preservá-los para depois? Entretanto, há situações em que a quantidade de inimigos em espaços pequenos transforma a tensão em irritação.

O jogador passa a administrar não apenas seus recursos, como também a vontade de explorar.

O combate ainda é um problema

A desenvolvedora melhorou consideravelmente o combate em relação ao primeiro jogo. Atirar é mais funcional, os inimigos apresentam pontos vulneráveis e a movimentação das armas é mais compreensível. Ainda assim, não é um sistema particularmente refinado.

Mesmo que não considere um problema, ocorreram momentos que senti uma rigidez dos movimentos, esquivas inconsistentes, inimigos que absorvem muitos disparos e uma sensação de pouco impacto nas armas.

A pouca variedade de inimigos também prejudica aqueles mais exigentes. Quando encontros semelhantes começam a se repetir, aquilo que deveria provocar tensão pode simplesmente se tornar uma obrigação antes de continuar a exploração.

A economia de recursos sofre com um problema semelhante. O jogo ensina o jogador a economizar munição durante boa parte da campanha, mas determinados confrontos, especialmente contra chefes, podem entregar recursos quando toda aquela economia deveria fazer diferença. Isso enfraquece a sensação de planejamento que o próprio survival horror tenta construir. Outros vão agradecer por esses recursos deixados.

Há, portanto, uma contradição: The Sinking City 2 quer que o jogador tenha medo de gastar recursos, mas nem sempre consegue transformar essa escassez em uma consequência satisfatória.

Itens do jogo para fabricação em  The Sinking City 2
(Reprodução)

Uma cidade fascinante que poderia ser mais explorada

É difícil negar que Arkham seja um dos maiores méritos da sequência.

A ambientação combina arquitetura dos anos 1920, decadência, água, sujeira e criaturas grotescas em um cenário que visualmente consegue sustentar o horror lovecraftiano. O estúdio demonstra que sabe construir espaços interessantes e, em determinados momentos, o jogador realmente sente vontade de entrar em cada sala para descobrir o que existe naquele local.

Mas existe uma frustração porque esse potencial nem sempre é aproveitado.

A estrutura mais fechada reduz a possibilidade de conhecer a cidade como acontecia no primeiro jogo. Alguns jogadores sentiram falta dos NPCs, das missões secundárias e daquela sensação de que Arkham era um lugar habitado por diferentes pessoas, interesses e histórias. Em outras palavras, a sequência apresenta uma Arkham visualmente mais impressionante, mas uma cidade que parece menor como experiência.

Essa talvez seja uma das maiores perdas da mudança de fórmula.

O horror cósmico funciona mais na aparência do que na narrativa

A ambientação lovecraftiana continua sendo um dos grandes atrativos, mas a narrativa não alcança sempre a mesma força.

Acredito que existam jogadores que consideram a história interessante e elogiam os personagens, enquanto outros enxergam uma trama simples demais ou pouco desenvolvida. O jogo utiliza símbolos, criaturas e referências a Lovecraft, mas nem sempre consegue reproduzir aquela sensação de mistério, insignificância e desconhecido associada ao horror cósmico.

Isso é importante porque Lovecraft não depende apenas de tentáculos, monstros ou nomes de entidades. O horror está também naquilo que o ser humano não consegue compreender. A busca por sentido existencial é uma das grandes fontes de frustração e um dos maiores questionamentos da humanidade.

Calvin Rafferty explora um ambiente sombrio em The Sinking City 2
(Reprodução)

Quando o jogador encontra uma criatura grotesca em um corredor escuro, a atmosfera funciona. Quando o jogo explica ou conduz determinados acontecimentos de maneira mais convencional, entretanto, parte dessa estranheza perde força.

A própria história pode dividir opiniões por colocar o relacionamento entre os protagonistas em uma posição importante. Para alguns, essa relação dá humanidade aos personagens; para outros, o romance poderá parecer deslocado diante de um universo que poderia explorar questões muito mais perturbadoras.

Os puzzles são melhores quando fazem você pensar

Os quebra-cabeças são provavelmente uma das áreas mais equilibradas da experiência.

Há desafios interessantes, especialmente quando exigem atenção ao ambiente e interpretação de pistas. Porém, também existem quebra-cabeças simples demais ou pouco intuitivos, esse são mais para aliviar tensão. Alguns dependem de conhecimentos ou associações que podem não estar suficientemente estabelecidos pelo próprio jogo, criando uma dificuldade que não necessariamente nasce da lógica do puzzle.

Essa irregularidade impede que a investigação volte a ser o grande diferencial da série. E essa é uma pena.

Porque a Frogwares tem experiência suficiente nesse campo para fazer algo que separasse The Sinking City 2 dos demais survival horrors. Em vez de apenas procurar a chave correta, a sequência poderia ter usado a investigação para alterar a maneira como o jogador compreende as áreas, os inimigos e a própria história.

Quando faz isso, o jogo mostra o potencial que poderia ter explorado mais. Compreendo que comercialmente seja menos rentável um título que entregue survival horror com poder de investigação profunda.

Tecnicamente, a evolução é evidente, no jogo

Visualmente, The Sinking City 2 está muito acima de seu antecessor. O uso da Unreal Engine 5 permite cenários mais detalhados, iluminação mais sofisticada e criaturas muito mais horripilantes. A utilização do ray tracing é pesada e observamos em diversos momentos, principalmente nos carros. Isso não quer dizer que seja suficiente para dizer que apenas isto carrega o título graficamente.

Meu relato pode ser polêmico, mas não obtive problemas de instabilidade durante minha jogatina. Entendo, que haverá leitores opinando quedas de desempenho e problemas de otimização, inclusive em máquinas capazes de executar o restante da campanha com desempenho satisfatório.
Sobre as expressões faciais dos personagens, elas não incomodaram é aceitável pelo orçamento investido pela empresa. Está análise está focada no potencial técnico da imersão e satisfação do jogador. Pois, esses problemas não destroem a experiência, apenas impedem que o acabamento técnico acompanhe completamente a qualidade artística.

Os efeitos sonoros do jogo, principalmente quando Calvin Rafferty, o novo personagem da franquia, passa por locais inundados com água, são incríveis. Aliás, os rangidos, gritos e sons de sofrimento dos NPCs podem causar um certo pavor. Principalmente quando jogamos com um fone de ouvido que possui uma acústica excelente ou tecnologia binaural, esse elemento fica ainda mais aguçado.

Gameplay de The Sinking City 2 com Calvin Rafferty e inimigoos
(Reprodução)

Você sempre fica com a sensação de que há alguém ao seu lado ou de que está sendo observado por alguém. É um clima que transmite aquela impressão de que algo pode surgir a qualquer momento.

Gamerdito (Veredito) Vale a pena jogar The Sinking City 2?

Esse é o ponto em que The Sinking City 2 se torna mais interessante de analisar. Como survival horror, a sequência funciona.

Ela possui uma ambientação profunda, bons momentos de exploração, quebra-cabeças interessantes, gerenciamento de recursos, criaturas grotescas e uma estrutura capaz de agradar quem procura uma experiência semelhante aos remakes de Resident Evil.

Como continuação de The Sinking City, porém, a situação poderia ter continuado o legado da ideia do primeiro título da franquia.

A investigação perdeu espaço. O mundo aberto desapareceu. Os NPCs e as missões secundárias foram reduzidos. A liberdade para descobrir a história diminuiu. Ademais, acredito que a identidade que tornava o primeiro jogo peculiar foi substituída por uma fórmula muito mais familiar. Há uma ironia nisso.

O survival horror com inspiração em jogos conhecidos pelo gênero e uma estética lovecraftiana, há motivos para dar uma chance. Para quem esperava reencontrar uma jornada investigativa de The Sinking City, entretanto, a viagem pode parecer menos uma continuação e mais uma mudança de endereço.

Contudo, devo afirmar que o jogo é uma das opções agradáveis para quem gosta dessa temática mais sombria. Os personagens representados podem causar um impacto em pessoas mais sensíveis, mas quem joga esses estilos de gênero sabe o que esperar.

Seja no console do PlayStation 5, Xbos Series, e no PC Windows via Steam ao qual desenvolvemos nossa review, recomendo jogar e se aventurar em uma ambiente único. Mesmo que seu estúdio tenha seu próprio ritmo e até inspirações de outras franquias, a identidade do jogo permanece intacta.

Por esse motivo, se vale a pena jogar, minha resposta é sim, e finalizo esta review com um a nota 8/10 para The Sinking City 2. Assim sendo, uma boa tentativa de transformar o horror cósmico em survival horror.

The Sinking City 2 está disponível para PlayStation 5, Xbox Series X|S e PC Windows desde 18 de agosto de 2026, com lançamento previsto posteriormente para Nintendo Switch 2.


Agradecemos à empresa responsável pelo jogo pela disponibilização de uma cópia para análise na versão de PC Windows. O recebimento do título não influenciou o conteúdo, a avaliação ou a nota da nossa review, que refletem exclusivamente a experiência da nossa equipe com o jogo.

Jefão Calheiro
Jefão Calheiro
Apaixonado por games, filmes de ficção científica, séries e tudo que envolve tecnologia e inovação, com mais de 15 anos de experiência comentando e analisando esses temas. Além disso, sou curioso por astronomia e, nas horas vagas, tento observar o cosmos como um astrônomo amador. Acredito no poder das opiniões e no respeito à diversidade de pensamentos. Em minhas análises, busco compartilhar conhecimento de maneira clara e acessível, ajudando o público a se conectar com as novidades do mundo do entretenimento e da tecnologia. Ah, e como bom flamenguista, vibro junto com o maior clube brasileiro, o Flamengo! Vamos, gamernéfilos, porque todo dia tem novidade nesse universo em constante expansão. =)

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